segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Cristal

Às vezes penso se deveria ou não escrever aqui. Não é o escrever, em si, que questiono; quem escreve o que sente sabe que é como uma necessidade, verter em palavras tudo o que nos enche o peito e a mente num turbilhão alucinante - se bem que, escrevendo, moldando as palavras, libertamos espaço na cache para mais do que precisa de ser traduzido.
Não, o que questiono é se deveria escrever aqui, neste espaço, ao fim e ao cabo semi-público. E questiono-me porque existe o risco de, lendo o que escrevo, não entendas porque o escrevo.

Há sempre, para quem escreve, o risco de ser mal interpretad@ por quem lê. Mas é um risco acrescido para quem escreve sobre o que sente, às vezes revelando o seu segredo mais íntimo.
Porquê, perguntas? Porque há sempre quem, entendendo a razão, o motivo que leva alguém como eu a escrever, consiga distorcer o pensamento e a intenção por trás das palavras. E há quem, entendendo as palavras, não entenda o significado e o porquê de escrever.
E é neste segundo grupo que te incluo, sabes? Porque podes não entender que, embora escreva "para ti", contigo no pensamento e embrenhado nas minhas palavras, não escrevo para pedir ou obter de ti algo.

Embora sejas uma constante dos meus sonhos, a minha pele anseie conhecer o toque da tua e os meus lábios descobrir o sabor dos teus, não te peço nada, nem sequer que te apercebas que és tu quem desperta em mim este sentir. Não te peço que me olhes profundamente nos olhos e me digas, com palavras ou sem elas, "eu sei". Não te peço que me toques a face ou a mão com ternura e que me permitas sentir o teu calor.

Não está nas tuas mãos dar-me ou negar-me o sentir e o escrever. Já os tenho, são meus e preciosos na minha estima. A cada traço no papel, a cada toque nas teclas, cristalizo em palavras o que sinto, ainda que muitas vezes sem conseguir traduzir a sua verdadeira intensidade. Mas são, ainda assim, cristal formado a partir de um sentimento tão transparente que poderias vê-lo nos meus olhos se, verdadeiramente, os visses para além do mero olhar.

É frágil, este cristal. Tão frágil que o estilhaçaria o desviar da tua mão, a pena nos teus olhos ou a sombra na tua voz ao dizer "não pode ser".
E assim, é com infinita ternura que me limito a deixá-lo aqui onde o podes colher - como o sentimento que me preenche, cristalino e frágil e teu.

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