terça-feira, 20 de outubro de 2015

Rendição

Quem pensaria que algo tão doce e suave como a ternura pudesse tornar-se esmagadora?

Quando te vi hoje, foi como se o coração parasse por segundos, suspenso enquanto processava e gravava a tua imagem, e ao contrair-se me roubasse a respiração. Sim, senti-me esmagada e sem ar pelo volume da ternura que me preencheu, que me fez desejar correr, olhar-te nos olhos em silêncio, pegar na tua mão e pousá-la sobre o meu peito para que sentisses o coração lá dentro batendo por ti.
Esperando que sem palavras entendesses o que não posso verbalizar.

Ainda agora, ao recordar esse preciso momento, sobrevem um arrepio, uma urgência na pele em tocar e ser tocada, um desejo não traduzido em gestos a não ser os dos dedos dançando sobre as teclas. E uma vontade de escavar o peito, abrir um buraco e extrair o coração, depois carregá-lo na mão ainda batendo e procurar até te encontrar, para to oferecer.
Mas tu ficarias a olhar para mim, mudo e incrédulo - ainda que tivesses percebido tudo, lendo através de tudo o que tenho escrito para ti, não terias uso para ele, não saberias o que fazer com um coração como este, cheio de marcas, remendado, pousado na minha mão em concha. Ficarias a olhar para mim e para este coração que não queres, indeciso entre aceitar, para o deitar fora logo que eu virasse costas, ou simplesmente desviar os olhos e recusar.
Mesmo sabendo tudo isto não consigo escapar, não consigo evitar que esta ternura, esta vontade de estar contigo, de passar uma mão em silêncio na tua face - enquanto os meus olhos se enchem de mar revelando outro Mar cá dentro - e selar esse silêncio com um beijo leve e doce, me domine de forma avassaladora.
E rendo-me por fim ao que já não consigo nem quero combater.

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