sábado, 17 de outubro de 2015

O som das ondas

Vou contar-te algo.
O que fica aqui não é mais do que o formato final, depois de uma série de tentativas que descarto por achar que não correspondem ao que quero realmente dizer. São inúmeras as folhas rabiscadas, palavras e estrofes riscadas, eliminadas, por não terem a força ou a suavidade requeridas - porque o que sinto não é sempre igual. Como o oceano.
Há ondas, há tempestades e há calmarias. Há dias de brilho azul interminável, quase cegante, de ondas preguiçosas que se espraiam nas rochas, e há-os de vento e turbilhão, em que as vagas verde-cinza afrontam as falésias ao mesmo tempo que se erguem para receber as gotas de chuva. E há as noites. Noites de chão prateado de luar, as ondas não mais do que um arrulhar que acaricia a areia, envolvendo-a em terno abraço.

Já vi todas essas cores, ao vivo e de perto. Senti os respingos e a maresia, caminhei na areia ou deixei-me estar de olhar perdido no horizonte líquido. Vi o mar em inúmeras encarnações, e sei o que digo quando te digo que o que sinto tem as mesmas nuances - porque há dias em que quero guardar este sentimento só para mim, e outros em que quereria gritar ao mundo as suas cores e a sua força, disposta a enfrentar qualquer coisa. Mas há também os dias e noites em que não sei se não seria melhor que nunca o tivesse sentido - porque um sentimento como este alberga em si mesmo uma semente, que tanto pode florescer em indescritível alegria como em inenarrável dor. Tudo depende da forma como é tratado: acolhido e aceite com ternura ou renegado com pena ou repulsa.

É por saber dessa semente que, por muita vontade que por vezes tenha de te falar de tudo isto, não posso fazê-lo. Não quero dar azo a que a semente se transforme no tipo de dor capaz de rasgar um coração. E, por mais suave que seja a voz, por mais delicada e atenciosamente que seja dito um "não", a dor que ele traz é inevitável.

Por isso, para que não tenhas de o dizer, não te chamarei, não te procurarei para dizer-te o que sinto. Para que não sejas inamovível rochedo, não te falarei deste sentimento que, cada vez mais, me apercebo que é como o oceano: grande, intenso, mutável e mais profundo do que se pensa.

Talvez um dia, em vez de rochedo, possas ser enseada; aí, se o quiseres, encontrar-me-ás: pronta a cantar-te baixinho na rebentação, a repousar em ti num beijo sereno e num terno abraço de Mar.

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