sábado, 28 de novembro de 2015

A Carta

Hoje fiz algo que já não fazia há algum (bastante!) tempo: escrevi uma carta.
Não, não me sentei ao computador e desatei a teclar como estou a fazer agora. Foi "à antiga", mesmo. Mas se calhar um bocadinho mais... refinado. Planeado.

Peguei primeiro num bloco para ir escrevinhando e estruturar as ideias, porque não queria uma folha cheia de gatafunhos entrelinhados, com partes riscadas e setas a apontar para "onde vai entrar este bocadinho que me lembrei de acrescentar agora e tive de escrever de lado por falta de espaço". Bolas, quem iria conseguir ler isso, se até eu às vezes tenho dificuldade?

Depois dos parágrafos alinhavados, com as setinhas a apontar para os sítios certos de 'cut&paste', peguei numa folha. Branca, lisinha, A4. Caneta azul macia que desliza bem. E um envelope que pedi antecipadamente, descartado como 'inútil' por já não ter o desenho certo mas totalmente adequado para o fim a que se destinava. Observei o paralelismo evidente com as vezes em que também eu fui considerada insignificante ou inútil apenas por não ter o aspecto certo. E sorri.

Comecei por dobrar a folha em terços - nada de mais para quem passou anos a fazê-lo. Ainda consigo fazê-lo à primeira, yayy to me! Fi-lo porque detesto que as dobras acertem num sítio onde já está escrito; fica feio e por vezes dificulta a leitura. Tentar emendar as dobras é ainda pior, porque o papel fica com marcas indesejáveis. E eu não queria que esta carta ficasse feia e com marcas, como eu.

Assim, consegui escrever de forma a que as dobras ficassem entre duas linhas. E é mais fácil manter as linhas direitas quando a altura do papel é menor; é que eu tenho o hábito de escrever como quem parte em missão para o espaço: as linhas escritas começam a subir e acabo com um texto quase na diagonal. Tudo bem quando se trata de apontamentos, um rascunho, uma receita. Esta carta? Não.

Escrevi, escrevi e continuei a escrever. Tudo direitinho, bonitinho, legível. Uma letra mais aprumadinha do que aquela que habitualmente uso para tomar notas, porque essas são só para mim e não me interessa se mais alguém consegue lê-las ou não. Mas a carta não podia ser assim. A carta tinha de ser perfeita, pelo menos em termos visuais, para não correr o risco de ser posta de lado como um rabisco incoerente.

No fim, ficou exactamente como eu queria. O texto fluido, a letra cuidada. Uma folha escrita de alto a baixo com um pequeno espaço de cabeçalho e outro no rodapé. Sem dedicatória nem assinatura. Sem nomes. Sem iniciais. Apenas uma mensagem, extensa mas sincera do princípio ao fim.

Voltei a dobrar a folha e pu-la no envelope. Não fora escrita para ser enviada por correio nem entregue em mão. Segurei-a durante uns minutos, indecisa entre guardá-la ou colocá-la, com um pequeno post-it colorido, onde sabia que seria encontrada pelo destinatário em mente.

Acabei por guardá-la e trazê-la para casa. Não era o momento adequado, e na verdade nem sei se alguma vez o será. Mas se um dia chegar às mãos daquele a quem se destina, esta carta continuará tão sincera e válida como quando foi escrita; e, ou surpreenderá por completo, ou removerá de vez qualquer dúvida.

O conteúdo da carta? Só eu o sei... por enquanto.
O "depois" logo se vê.

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