segunda-feira, 30 de novembro de 2015

O prazer de escrever

Embora nem sempre tenha ocasião para isso, a verdade é que gosto de escrever à mão.
Gosto de escolher o papel adequado pelos pormenores: cores invulgares, a sensualidade da textura na ponta dos dedos, a espessura, o peso. Sinto-me como que num paraíso quando visito uma loja especializada em material para artes plásticas, onde posso comprar blocos ou folhas isoladas: a minha "colecção" inclui blocos A4 de cartolina negra, blocos A5 de argolas e papel texturado, e folhas soltas prateadas, cinzentas, marmoreadas, etc. Quando entro nessas lojas, é frequente esquecer-me de olhar para o relógio...

Às vezes tenho de escrever com o que tenho à mão, e nesse caso tento ao menos escolher uma caneta que não deixe marcas fundas no papel, de ponta fina e cuja esfera deslize bem. Ou então uma de ponta tipo feltro ultra-fino, das que servem também para desenho rápido - é que esse é outro dos meus prazeres, desenhar. Carvão (nem sei quantos lápis de durezas e espessuras diferentes tenho...), pastel seco, aguarela, tinta acrílica. A família sabe disto, claro, e volta e meia presenteiam-me com um estojo de material variado pelo aniversário ou Natal. Algumas coisas prefiro ser eu a comprar pessoalmente, como lápis ou canetas de cores metalizadas que sobressaem em papel de fundo estampado. Imaginem receber pelo correio uma carta em papel marmoreado escrito a tinta cor de bronze, por exemplo. Dá um aspecto totalmente diferente de um email, não dá?

Pode-se pôr muito de nós nas actividades que fazemos. E, quando escrevo uma carta, ponho muito de mim, não só naquilo que escrevo mas na forma como o faço, incluindo a escolha de material. Nem sempre isso é possível, como quando escrevi aquela carta, mas mesmo aí fiz o melhor que pude com o que tinha, empenhando-me no desenho da letra.

Juntam-se aí dois dos meus prazeres, escrita e desenho. Porque, ao escrever uma dedicatória, um bilhete, um recado, a letra com que o fazemos pode transmitir o valor e o significado que o/a destinatário/a tem para nós. Faço-o com (relativa) frequência, recorrendo a letra cursiva de arabescos ou caracteres góticos, e desenho as letras com cuidado, atenção, carinho.
E foi para dar expressão ao prazer de o fazer que resolvi comprar um estojo de escrita: papel e envelopes texturados, uma haste de madeira, cinco aparos diferentes, boião de tinta e, claro, lacre e sinete.

Vou certamente praticar muito nos próximos tempos, para me habituar a estes aparos. E pode ser que algum familiar ou amigo se lembre de me oferecer pelo Natal o próximo instrumento: uma pena :)

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