sábado, 12 de dezembro de 2015

Navios

Há pessoas que ao cruzar-se evocam dois navios em alto mar: cargueiros que passam um pelo outro com calma, com tempo para se medirem, se mirarem e enamorarem antes de se afastar, ambos portadores da recordação indelével de momentos que carregarão sempre consigo.

E há aqueles para quem não existe nem nunca existirá um "nós", que até quando ocupam vizinhanças do mesmo espaço é de forma incidental, sem nada em comum, sem troca, sem partilha. Navios atracados em cais diferentes do mesmo longo ancoradouro, à vista um do outro mas a um mundo de distância.

Como hoje... poucos metros que pareciam um oceano inteiro.

Tu, a escuna, o iate, o catamarã de uma beleza esguia que se impõe, navegando a velocidade de cruzeiro e maravilhando os olhos do mundo.
Eu, a barcaça, o arrastão, o rebocador que puxa lenta e discretamente a sua carga, singrando invisivelmente pelas sombras à vista de todos.


Dois barcos, o mesmo porto. Um na marina de luxo, o outro na doca pesqueira. Qualquer cruzamento à boca da barra não é mais do que o momento fugaz em que passamos um pelo outro sem que me vejas, e rapidamente te distancias sem olhar para trás, possivelmente sem te dares sequer conta de que eu estou ali, tão perto que quase poderia tocar-te mas reduzida a ver-te afastar, até não seres mais do que uma vela no horizonte, um ponto, uma miragem. Só eu guardo a recordação de te ver passar.

Hoje. Algures na noite partiste sem um olhar, sem um adeus, deixando apenas o espaço vazio onde já não te encontrei. Como sempre sem me ver, partiste, veloz. E eu fiquei a olhar o local onde já não estavas, guardando tristemente a recordação da tua presença longínqua.

Noutro dia, no cais de sempre, partirás como sempre fazes; mesmo quando te despedes, vais-te rapidamente e sem olhar. Sem nunca me ver. E eu ficarei para trás como sempre faço, com o espaço vazio e a recordação.

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