quinta-feira, 1 de junho de 2017

[Palavras de outros] - Il Bacio

Il bacio appena sognato
in una notte di tradimenti,
dove tutti consumano amplessi
che non hanno profumo,
il tuo bacio febbricitante,
il candore delle tue labbra,
somiglia alla mia porta
che non riesco ad aprire.
Il bacio è come una vela,
fa fuggire lontano gli amanti,
un amore che non ti gela
che ti dà mille duemila istanti.
Ho cercato di ricordare
che potevi tornare indietro,
ma ahimè il tuo bacio
è diventato simile a un vetro.
Io come un animale
mi rifugio nel bosco
per non lasciare ovunque
il mio candido pelo.
Il pelo della mia anima
è così bianco e così delicato
che persino un coniglio ne trema.
Tu mi domandi quanti amanti ho avuto
e come mi hanno scoperto.
Io ti dico che ognuno scopre la luce
e ognuno sente la sua paura,
ma la mia parte più pura è stata il bacio.
Io tornerei sui monti d’Abruzzo,
dove non sono mai stata.
Ma se mi domandano
dove traggono origine i miei versi,
io rispondo:
mi basta un’immersione nell’anima
e vedo l’universo.
Tutti mi guardano con occhi spietati,
non conoscono i nomi delle mie scritte sui muri
e non sanno che sono firme degli angeli
per celebrare le lacrime che ho versato per te.

(Alda Merini)

Pálido ponto azul

Tenho um terraço, daqueles no topo do prédio e tudo, mas a vista lá de cima não é nada de especial.
Às vezes vejo aviões militares a passar. Mas só às vezes, porque habitualmente voam bem lá no alto e só lhes ouvimos o ruído do motor.

Em dez anos, devo poder contar pelos dedos a quantidade de tardes sem vento naquele local e que coincidiram com fins de semana ou dias de férias; que é o mesmo que dizer, a quantidade de vezes em que pude acender o grelhador a carvão. Só o fiz 3 ou 4 vezes, afinal. Isso diz muito sobre o vento, mas nada sobre outros factores.

A verdade é que, de há alguns anos a esta parte deixei, praticamente, de ir ao terraço.
Durante o dia a vista não é nada de especial, como disse. E está vento, mesmo quando o céu está limpo e azul. Seria diferente se tivesse vista para o mar. Aí, nem vento nem chuva me arredariam do sítio de onde os meus olhos poderiam procurar paz.


À noite é diferente.
Nos dias quentes, depois de um horas de sol a bater nos mosaicos do chão, o vento parece pouco mais do que uma aragem. Ou então é mesmo pouco mais do que uma aragem, e até sabe bem.


O terraço tem um parapeito sólido, uma barreira eficaz à poluição luminosa oriunda da rua lá em baixo - mas só se nos sentarmos no chão, sentindo o mosaico ainda a irradiar o calor acumulado durante o dia. O terraço torna-se então um óptimo posto de observação do céu nocturno.
E é exactamente por isso que agora é raro ir para lá - a menos que estejamos em tempo de Aquáridas, Perseidas ou Oriónidas.
Porque perder os olhos na imensidão do céu, nas incontáveis estrelas acima de mim, fazem-me sentir o peso da minha pequenez e insignificância.
Eu, com todos os meus sonhos, desejos e medos, não passo de um micróbio entre sete mil milhões de micróbios correndo, vivendo e morrendo num pequeno e pálido ponto azul no quintal de uma galáxia entre milhões de galáxias.

Olhar para o céu, à noite no terraço, é olhar para o infinito.
E isso faz-me sentir infinitamente só.


terça-feira, 30 de maio de 2017

Tempestades

"Quem foi que provocou vontades
e atiçou as tempestades 
e amarrou o barco ao cais? 

Quem foi que matou o desejo
e arrancou o lábio ao beijo 
e amainou os vendavais?" 



sexta-feira, 26 de maio de 2017

Nós

Imaginas o que me apetecia agora?
Estava capaz de largar tudo, meter-me no carro, fazer uma rápida paragem em casa para buscar algumas coisas (mais uma paragem para te apanhar, se quisesses) e finalmente rumar a um pinhal - no Magoito, ou São Julião, por exemplo.
E nem me iria preocupar com lagartas.


Abriria então a sacola trazida de casa: garrafas de água, tupperwares a escorrer condensação, um top de desporto, livros, toalha de praia, calções, chinelos e um embrulho rústico de aspecto duro e pesado. Ao desenrolar o embrulho, uma lona rectangular, pesada e colorida, com os lados mais estreitos presos em barrote de madeira perfurados e amarrados com corda de sisal grossa.

Depois, pegar numa extremidade da lona, desenrolar as cordas e amarrá-las à volta de um pinheiro, com voltas reforçadas sobre voltas e nós fortes. E fazer o mesmo à outra ponta, tudo bem preso e amarrado com nós de marinheiro.

Finalmente, trocar a roupa de adulta de meia-idade (uma senhora!? supostamente) civilizada pelas de uma gaiata despreocupada e semi-selvagem como fui há tantos anos. As calças compridas pelos calções de ganga meio esfarrapados, a blusa sóbria pelo top colorido, os sapatos elegantes mas confortáveis pelos chinelos ainda mais confortáveis.

Espreguiçar-me, sentir o cheiro do pinhal misturado com o do mar, abrir bem os braços para abarcar tudo o que me rodeia (tudo incluindo tu, se lá estivesses) e respirar bem fundo.

Finalmente, com uma toalha de praia dobrada a fazer de travesseiro, um livro, mais um tupperware cheio de morangos e uvas, estender-me na cama de lona e des-con-tra-ir balouçando levemente na brisa.

Se tivesses decidido vir seria diferente, mas não muito. A lona teria de ser amarrada com mais força, nós mais fortes para nos suportar a nós, e é provável que fossem necessários mais víveres. Mas, em vez de fazer de uma toalha o meu travesseiro, o meu ninho seria o teu ombro e balouçaria embalada nos teus braços.

Nós, juntos, e paz para simplesmente estar.
Nada mais seria necessário.

quarta-feira, 24 de maio de 2017

Segredos

Hoje em dia, tudo é digital; até os segredos.

É por isso que guardo na agenda uma imagem do teu sorriso que, quando sei que ninguém me vê, observo demoradamente
hoje, o nariz
amanhã, os olhos, as sobrancelhas. pestanas.

focando, ampliando, fixando cada sinal ou poro até conhecer os teus detalhes.

Mas o ponto ao qual regresso uma e outra e outra vez são os teus lábios.
Como pequenos morangos maduros hipnotizam-me, fazendo crescer em mim a vontade inconfessável, o desejo inadmissível de tos morder. Estendo os dedos e...

Sou uma menina bem comportada. Suspirando, guardo o desejo e pressiono a tecla do retorno.
O ecrã escurece, tenho a boca seca. Há coisas que devem ser mantidas em segredo.

À noite, ao apagar a luz, humedeço os lábios e sorrio.
Mal a escuridão se instale a minha mente encher-se-á de bites e bytes.
Em segredo.

quinta-feira, 18 de maio de 2017

Unexpected

Vou contar-te um segredo...
Sabes? Gosto de surpresas.
Mas, calma! Só gosto das que me fazem sorrir, ou rir como tola no meio da rua.
Não gosto das outras, as que me fazem ter vontade de gritar ou fugir para bem longe.

Gosto das surpresas que transformam o coração num pássaro pequeno, esvoaçante e que bate as asas na gaiola do peito como se quisesse sair.

Gosto das surpresas que me agigantam o coração e me enchem o estômago de borboletas, mesmo que às vezes me deixem lágrimas nos olhos, as bandidas.

Gosto de sair à rua e encontrar à minha espera quem me arranque sorrisos, e me cale as perguntas com um beijo, e me faça achar que o sol brilha radioso no céu azul, mesmo sob a chuva mais intensa.

Gosto de ser surpreendida por quem me sorria com os olhos e não precise de dizer nada.
Que me abrace, apenas, com força; e me faça sentir em casa.

Diz-me, quando é que me fazes uma surpresa?

terça-feira, 16 de maio de 2017

Nightstorm

O mar antes sereno encrespa-se.
Baloiçamos ao ritmo
das ondas em crescendo
com as mãos inquietas
na busca do infinito.

Vem cá. Despe-me
as palavras, uma a uma
Segura-me a sombra que teima em fugir
e entre os dentes com que
me rasgas as páginas
saboreia o mais profundo da minha alma.

A tempestade chega
no grito das gaivotas
um relâmpago fende a noite,
e a espuma cobre por fim os rochedos
na base do farol.

Tomados pelo cansaço, tornamo-nos conchas
à espera da luz dourada do amanhecer.

domingo, 14 de maio de 2017

Unattachment

"When we can approach love as an offering, regardless whether the beloved accepts or reciprocates it, we bask in the essence of what it truly means to care for another, apart from our own needs and wants.
Unattachment in love means acknowledging our feelings for another, regardless of action, choice or result. This may be the most real type of love."

extraído daqui.

sexta-feira, 12 de maio de 2017

Challenge

Forget your fears.
Silence your inner demons.
Here, take my hand.
Let's dare to find out where this could go.
Let's take a chance.



Who knows?
Maybe, eventually, we could be happy.

quarta-feira, 10 de maio de 2017

Ictus Cordis

Visto-me de silêncio, e na ponta do coração guardo todo o sentimento, toda a esperança, todo o sonho.

segunda-feira, 8 de maio de 2017

Palavras de outros

“O amor assusta o medo. As palavras que te digo vêm de longe. Passam por mim como se não fosse ninguém. São flechas a rasgar o ar em volta. As palavras que te escrevo são tuas muito antes de serem minhas. És tu que as escreves em mim. Por debaixo da pele.”

Pedro Paixão*

terça-feira, 25 de abril de 2017

Quotes that matter

 (from The Kindly Ones)

“Have you ever been in love? Horrible isn't it? It makes you so vulnerable. It opens your chest and it opens up your heart and it means that someone can get inside you and mess you up. You build up all these defenses, you build up a whole suit of armor, so that nothing can hurt you, then one stupid person, no different from any other stupid person, wanders into your stupid life...You give them a piece of you. They didn't ask for it. They did something dumb one day, like kiss you or smile at you, and then your life isn't your own anymore. Love takes hostages. It gets inside you. It eats you out and leaves you crying in the darkness, so simple a phrase like 'maybe we should be just friends' turns into a glass splinter working its way into your heart. It hurts. Not just in the imagination. Not just in the mind. It's a soul-hurt, a real gets-inside-you-and-rips-you-apart pain. I hate love.”



(from The Sandman)

“It is sometimes a mistake to climb; it is always a mistake never even to make the attempt. If you do not climb, you will not fall. This is true. But is it that bad to fail, that hard to fall?”

“You know what happens when you dream of falling? Sometimes you wake up.
Sometimes the fall kills you. And sometimes, when you fall, you fly.”

[Quotes are from Neil Gaiman's mentioned works]

segunda-feira, 24 de abril de 2017

Alter procedure

Chocámos
na invisível fronteira
entre
a realidade e o sonho;
de repente e
sem saber como,
embrenhaste-te
si.len.ci.o.sa.men.te
nas linhas do meu código
(aninhaste-te na função onde diz
a que velocidade
me batem os ventrículos)

e assim,
de mansinho,
e de um dia
para o outro,
com indizível ternura,
noto que te levo comigo
para onde quer que vá...

sexta-feira, 14 de abril de 2017

Momentos

Toda a vida é feita de momentos.
Sim, eu sei, soa a cliché mas é verdade.
O tempo flui e nós experimentamo-lo sob a forma de momentos sequenciais, pequenas peças num gigantesco puzzle que é o tecido das nossas vidas.
E, como em tudo, há-os bons e há-os maus.

Há momentos que nos levam aos píncaros de felicidade, e há momentos que nos deixam à beira de uma depressão. Há momentos que induzem circunspecção, enquanto outros originam reacções explosivas, sejam elas de alegria ou de fúria.

Há momentos passageiros. E há momentos que marcam.
Alguns, reconhecemos de imediato como o que são. Outros, temos de olhar para trás para perceber quando sucederam, porque estávamos distraídos ou focados noutra coisa qualquer.

"Life is what happens to us while we're making other plans."

Os momentos marcantes podem ser apenas isso, momentos. Ou podem ser o início de algo muito maior, quer seja bom ou mau. Podemos ser nós a criá-lo ou não.
Por vezes, quando é de imediato reconhecido como extraordinário, com o momento vem a esperança - de que não seja apenas um momento mas apenas o primeiro de muitos. Às vezes a esperança cumpre-se. E às vezes não.

Guarda esses momentos num bolso do coração, como pequenos tesouros. Se a esperança tiver onde se agarrar e de rebento frágil se tornar árvore frondosa, poderás sempre reconhecer esse primeiro momento e recordar "onde/quando tudo começou". Mas se a esperança morrer - arrancada de ti ou porque tenha apenas definhado em solo estéril - esse momento único, esse tesouro guardado no teu peito, pode ser só o que te resta, mas continuará a ser teu.

Nem sempre é fácil criar momentos; muitas vezes é preciso abrir a alma ao vento como quem dá o peito à espada, revelando-nos como seres vulneráveis quando preferiríamos estar escudados e protegidos. Mas se, com o pretexto da protecção, nos fecharmos em nós mesmos, que nos sobrará?

Não te deixes morrer de coração vazio.
Não fiques fechad@, calad@, sentad@ no escuro à espera que a vida aconteça, desejando que fosse diferente. Atreve-te a querer. A fazer. Cria momentos. Porque, no fim, mesmo que nada corra como desejarias, terás o coração cheio desses pequenos tesouros, e na recordação da vulnerabilidade que revelaste encontrarás força e um motivo para, apesar de tudo, sorrir.
E de coração cheio poderás dizer "eu atrevi-me. eu quis. eu vivi."
Quant@s poderão dizer o mesmo?

quinta-feira, 13 de abril de 2017

Primavera

§ Este é um relato de como o sol reentrou na minha vida.§

Muito aconteceu de há um ano para cá.

Novos projectos, novos desafios, novas posturas, novos paradigmas, novas pessoas.
Um carrocel com muitos altos e baixos. Algumas batalhas, nem todas ganhas, mas em que me empenhei totalmente. Alguns momentos de acalmia, de placidez, de reflexão.
E muitos momentos em que atirei as mãos ao ar em exasperação, semi-clamando "mas o que raio é que falta acontecer?"

É que um ano, teoricamente (ou supostamente?) tem quatro estações, pelo menos nesta zona do berlinde azul. E este meu ano teve de tudo: princípios, meios e fins. Coisas que se arrastaram e coisas que acabaram, estiolando no verão ou gelando no inverno.
Daí que, quando voltou o equinócio, embora ainda com uma réstia de esperança eu me sentisse pouco optimista.
Mas o karma lá terá achado que estava na altura de algo diferente - talvez porque já era tempo, ou talvez porque eu tenha entrado numa de decluttering e começado a optar por coisas mais simples e (muito mais) ao meu gosto.
Numa etapa dessa jornada decidi que precisava de cadeirões novos e comecei a procurá-los... mas nada me encantava. Achava alguns bonitos mas não tinham aquele não-sei-o-quê que me fizesse dizer "é isto!!!"
Até que os encontrei, num anúncio: usados mas em bom estado, de uma madeira exótica forte. E almofadados cor de sol.

Fizeram-se os contactos da praxe, para ver ao vivo e decidir. E chegou o dia, que por mero acaso foi o do meu aniversário.
A porta abriu-se, entrei... e puff! Paixão à primeira vista.
Dentro da minha mente soltavam-se foguetes ("É isto, é mesmo isto!!!") e senti-me como se o Universo me estivesse a dar um presente.
Entre dois dedos de conversa que se tornaram vinte, fechou-se o acordo no meio de um rol de histórias e referências em comum. Os sorrisos e a gentileza foram o bónus extra.


Os cadeirões foram para a sua nova casa, enchendo-a de sol, e eu vim-me embora com um brilhozinho nos olhos: é que hoje fiz um amigo, e coisa mais preciosa no mundo não há.

Parece que, finalmente, a Primavera chegou.


quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Sursum corda

- Hamei-te, sabias?
- Pff, escreveste mal
- É porque foi um erro...

Weightless



*When we let go of something heavy that we hung to for so long, we feel... weightless.

Let the storm rage on




It's time to see what I can do
To test the limits and break through
No right, no wrong, no rules for me I'm free!

Let it go, let it go
I am one with the wind and sky
Let it go, let it go
You'll never see me cry!

Here I stand
And here I'll stay
Let the storm rage on!

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Intervalo

O espaço foi preenchido por silêncio de rádio.



O tempo passou.
Continuo a ser eu mesma mas já não sou a mesma.
- O que quer isso dizer? perguntas
Que já não me conheces - respondo
E que te recuso o direito
de achar que sim.
É arrogância - digo-te
achares que sabes porque
faço o que faço
ou digo o que digo
sem sequer me perguntar.

Tudo muda, e todos, sem excepção - entropia.
Também és quem és mas já não és quem eras.
Já não te conheço embora te reconheça.


Agora que já expliquei, podemos fazer reboot?
Sem falsas partidas, voltar ao início?

Olá, sou a XR.
Acho que esta poderá vir a ser uma bela amizade.

Círculos

Dias, horas, minutos foram passando e já lá vão quase cinco anos.

Demorei a enterrar os sonhos e a apagar os números.
Acabei por fazê-lo, não contra vontade mas com alguma tristeza. Há sempre tristeza quando deixamos para trás um capítulo que consideramos não ter sido devidamente encerrado, mas que só uma completa loucura justificaria manter em aberto, como uma ferida à qual se arrancam constantemente as crostas - sem deixar fechar, cicatrizar, sarar de vez.

E, no entanto, como tantas vezes acontece em filmes e em livros, a história que ficou por contar alcandora-se de novo no horizonte, como uma carruagem de um comboio louco num círculo mal desenhado. Desafiando-me.

Paro e semicerro os olhos, sem saber bem o que fazer. Tento focar à distância mas o que consigo ver é muito pouco. Quero ver mais, mas não ouso pedir. Talvez agora, como mera espectadora, pudesse assistir ao desenrolar dos eventos, os encontros e desencontros e as batalhas. E sorrio ao pensar no clamor de metal contra metal de espadas desembainhadas... ou não fosse eu quem sou.

É que, apesar do tempo que já passou, ainda mantenho (pelo menos parcialmente) o que disse.
Não foi o medo que me tolheu.
Não foi a doença nem a descrença.
Ainda seria capaz de fazer o que disse que faria.
Mas a história mudou. Já não é a mesma, pois que nem eu sou já a mesma.
Ela lá está, a história - noutros locais, com outros personagens, diferentes vontades e ambições.

Talvez a história seja eterna - círculos atrás de círculos, dentro de círculos.
E talvez eu possa voltar a entrar nela, só o tempo necessário para cumprir o meu papel e voltar a desembarcar, encerrando de vez o capítulo.

Ou talvez não.

terça-feira, 4 de outubro de 2016

Desejo

Deixa-me encostar a cabeça
na curva do teu pescoço.

Quero o cheiro da tua pele na minha.

terça-feira, 30 de agosto de 2016

quarta-feira, 27 de julho de 2016

Moving forward

"...
We have no need of false revolutions
In a world where categories tend to tyrannize our minds
And hang our wills up on narrow pegs.
It is well at every given moment to seek the limits in our lives.
And once those limits are understood
To understand that limitations no longer exist.
Earth could be fair. And you and I must be free
Not to save the world in a glorious crusade
Not to kill ourselves with a nameless gnawing pain
But to practice with all the skill of our being
The art of making possible."



- Nancy Scheibner, "The art of making possible"

segunda-feira, 13 de junho de 2016

60

60 segundos.
60 minutos.
60 dias.

A velocidade mantém-se elevada, seja a passo rápido ou pressão controlada no acelerador.
Mergulhei de cabeça nesta nova realidade e, em vez de voltar à superfície à procura de terra firme, adaptei-me - como se tivesse ganho um espiráculo que me permite dançar, fluir entre as ondas, contrariar as marés, longe dos seres para quem o mundo subaquático é algo que atemoriza.

Descobri-me afoita, exploradora.
Onde outros se encolhem de medo, eu danço.
Aprendo a cada dia, a cada percurso e em mim deixou de haver lugar para o medo de nadar onde não há pé.

Prestes a entrar num novo reino ainda mais incrível, novos caminhos se abrem à minha frente.
A viagem segue dentro de momentos.

sexta-feira, 27 de maio de 2016

30+

... e sem dar por isso, já passou mais de um mês.

Nesta realidade que é agora a minha, há dias a velocidade supersónica. E outros com tempo para reorganizar coisas, rever listas, prioridades.
Mas, a cada dia, parece que já vivo isto há anos, pela forma como flui.

Como se só faltasse o momento certo para ir para onde já deveria há muito ter ido, estar onde já deveria há muito estar.

À medida.
O resto? Vamos ver.

quinta-feira, 5 de maio de 2016

segunda-feira, 2 de maio de 2016

Flying solo

Uma quinzena de apostas, de inícios e novas experiências.
Uma quinzena de dúvida, de esforço, de tentar não falhar.
Uma quinzena de aprendizagem prática, onde quase tudo foi novo mas à distância - ou com rede de segurança.

Amanhã a prova de fogo, o primeiro voo a solo, de GPS em punho - e sem rede.

Fingers crossed (but not while I'm driving)

Leap of faith

Às vezes há projectos que habitam em nós sem que os possamos realizar. Sentimos cá no fundo que temos as capacidades necessárias, a vontade, a energia - mas não as condições. "Um dia...", pensamos, acarinhando o sonho antes de o pousar na prateleira.
Alguns vão-se enchendo de pó porque as condições não surgem.
Outros definham porque elas nunca chegam a surgir.

Mas, às vezes... o telefone toca.

Quando alguém que não conhecemos e que nunca tinha ouvido falar de nós nem do nosso sonho vem ter connosco sem que o tivéssemos procurado, tudo parece surreal.

Quando essa pessoa nos estende sobre a mesa um projecto, que não é mais do que uma versão diferente do nosso sonho que repousava na prateleira, e nos pergunta se gostaríamos de embarcar nele, tudo parece possível.

Quando, a seguir, essa pessoa nos ouve dizer que mais tarde vamos a outro lado discutir um projecto semelhante, e responde sorrindo "espero que não gostes!", tudo parece um filme.

Quando, finalmente, essa pessoa toma a iniciativa de nos dar condições para abraçar o projecto (prometendo ainda mais), ficamos a pensar se afinal essa coisa do destino existe ou não, e se algures na nossa carta astral estava marcado que esta oportunidade chegaria.

Alguém que não nos conhece de todo mas acredita em nós e nas nossas capacidades a ponto de se dispor a apostar nelas desta forma... é uma sensação tremenda.

"Quando se fecha uma porta, abre-se uma janela."

Só que, às vezes, os corredores são longos e sombrios, e as janelas minúsculas.
E, outras vezes, as janelas são enormes... panorâmicas e de sacada.

Sinto-me como se me tivessem aberto uma dessas, dizendo "vem!".

Mas sinto também o peso da responsabilidade, por ter nas mãos a confiança que outra pessoa depositou nelas, dando-me desde o primeiro dia provas sucessivas da mesma à medida que se assume como meu Mestre. Alguém que deu um salto de fé ao apostar em mim e se propõe colocar ao meu alcance as ferramentas necessárias que permitirão que um dia deixe de ser Aprendiz e passe a ser peça importante do seu projecto.

Não posso senão dar o meu melhor para não trair essa confiança, e fazer tudo o que estiver ao meu alcance para fortalecer este projecto que abracei e do qual passei a fazer parte, tornando-o também meu.

No que depender de mim, Mestre, o teu salto de fé será uma aposta ganha.

quinta-feira, 21 de abril de 2016

Conyac

Não, não, não.
Não estou a dizer "Fim" em checo como no final dos desenhos animados que o Vasco Granja nos mostrava. Isso era "koniek".

Conyac é algo diferente. Não sabem o que é? Eu explico.

Já ouviram falar de crowdfunding? Um grupo de pessoas (cinquenta, cem, dez mil) a contribuir financeiramente para que um projecto se realize, seja para a produção de um álbum, de um livro ou roupa interior revolucionária.

É o poder da crowd, um grupo de pessoas anónimas, e do seu esforço colectivo.

Conyac (https://conyac.cc/en) assenta no modelo de crowdsourcing: trata-se de tradução colectiva e colaborativa, um serviço criado no Japão e que conta com participantes e utilizadores de todo o mundo.

Quando pela primeira vez vi isto anunciado no Facebook, estranhei pois nunca tinha ouvido falar de tal coisa. Espreitei o site, li um pouco mais e fiquei curiosa o suficiente para me inscrever. "Deixa lá ver no que dá", pensei, enquanto identificava os pares de línguas em que poderia fazer tradução de pequenos textos.

Pouco tempo depois soube do início de um projecto colaborativo que me interessou. A minha inscrição foi aprovada e fui ver os textos disponibilizados para tradução; escolhi um e submeti. Depois outro. E outro. E outro.
Às tantas já estava noutro projecto. E mais outro. Os outros membros faziam comentários, pediam ajuda, tiravam dúvidas. E sem saber bem como alguns já se conheciam pelo nome e brincavam.

Participar tornou-se quase num hábito. O facto de poder traduzir à medida do meu tempo, seleccionando o que queria traduzir (dentro dos projectos disponíveis) já era interessante. Ganhar algum dinheiro com isso, ainda por cima, era a cereja no topo do bolo.

A esta data, os projectos em que participei terminaram.
Mas os membros continuam a comunicar, a tirar dúvidas uns aos outros, a trocar novidades e a fazer planos para o evento (sim, vai haver um evento!) em diferentes países no mesmo dia.

Mais do que membros de um mesmo projecto, tornámo-nos uma comunidade.
Isso é bom, não é? Venham daí :)

terça-feira, 12 de abril de 2016

14

Modo countdown.

O que para algumas pessoas seria motivo de crises de nervos, pensamentos depressivos, fúria, irritação ou uma machadada na auto-estima, para mim foi um STOP.

Reavaliar.
Estou no caminho correcto?
Para onde quero ir?
E há outra forma de chegar ao destino sem ser por onde ia?

Repensar.
Abrir a mente e o espírito às possibilidades, não descartar nada "porque é difícil", "porque nunca fiz", "porque não dá jeito". E, a dada altura, impensável o "posso esperar mais algum tempo antes de decidir".
Porque, às vezes, é o estar parado que se revela a pior opção.

Devagar, estou a desbravar novo caminho...

14.
Está quase.

quinta-feira, 31 de março de 2016

Outra vez MEC

"O amor não se percebe. Não é para perceber. O amor é um estado de quem se sente. O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende."
[Miguel Esteves Cardoso]

domingo, 6 de março de 2016

< END >

Por fim, o adeus.

Não havia volta a dar, claro. Nem retrocesso, curva ao lado, nem nada - apenas caminhos que se tornaram divergentes.

Ainda assim, esperava... algo. Não ter sido tão facilmente esquecida, talvez, como se nunca me tivesse cruzado sequer com aquelas pessoas. Mas não deixei que isso me modificasse a intenção que levava, de despedir-me da mesma forma que usei para lidar com os outros nesses dois anos: o mimo, a doçura.

Sei que não serei apagada de todas as memórias, que algumas pessoas que me foram e são queridas também não me esquecerão - e até se lembrarão, de tempos a tempos, de me ligar ou mandar uma mensagem a perguntar como estou e o que tenho feito, tal como tenciono fazer no sentido contrário. E talvez nos encontremos por aí, por acaso ou por acordo, e troquemos sorrisos e abraços e notícias.

E sei que haverá quem, embora se recorde, não vá sequer pegar num telemóvel para escrever "olá, como estás?" ou responder à mesma pergunta. Porque manter amizades, quando as pessoas não se vêem e falam diariamente, depende de duas coisas: ou de um laço tão, tão forte que os dois podem estar meses, anos sem se falar e ao reconectar-se tudo clica no sítio como se tivessem estado juntos ainda na véspera, ou então de um esforço, ainda que pequeno, de parte a parte para que o fio criado pela convivência não se rompa.

Há fios que não quero romper, laços que não quero quebrar.
Laços que quereria ver mais apertados. Mas não sei se tal será possível - porque, mesmo que eu esteja disposta ao "esforço", ninguém me garante que do outro lado se darão ao trabalho de me responder. E, se isso acontecer, vai doer, porque dói sermos ignorados.

Sei, porque já aconteceu - e magoou.
Mesmo assim estou disposta a tentar de novo; é que, mesmo que quem está do outro lado não esteja disposto a esforçar-se, eu estou, porque acho que a amizade merece ser alimentada.
E há amizades que merecem até ser nutridas, para que cresçam e floresçam.
Para que se tornem árvores grandes e frondosas.

Algumas árvores em particular serão regadas e acarinhadas para que o laço não se perca - pequeno fio que me liga a quem trago no coração.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

Código inerte

(...)
"o Abismo é feito de todos os lugares onde ninguém está, das paisagens que ninguém vê. É feito do silêncio, e da falta, e do apagado, e do não-lido; é o abismo existente entre aquilo que queremos e aquilo que temos, entre amor e afeição, entre esperança e verdade. É o sítio de onde vêm as interpretações erradas e é a resposta a uma pergunta: uma árvore existe se não houver ninguém para a ver?"

Michael Marshall Smith, in «Clones»

É sobre o abismo que se estendem as cordas que ainda nos ligam - mas esfiapam-se, tornando-se mais finas, mais finas, cada vez mais finas até o dia em que por fim se partirão. Aí, não haverá mais nada, nem sequer ecos da presença há muito desvanecida. As recordações perder-se-ão como um pedaço de código comentado, tornado inútil, soterrado, esquecido.

Entre o que não era e o que nunca chegou a ser, a memória desaparecerá no abismo.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

É assim uma dor...

Às vezes tenho dificuldade em traduzir para texto o que sinto e quero dizer.
Dou voltas, apago, escrevo, apago de novo e lá acaba por sair qualquer coisa que consegue transmitir mais ou menos o que eu queria - mas só mais ou menos, porque nisto de escrever não chego sequer aos calcanhares de muita gente que por aí anda.

O pior de tudo, a frustração, é encontrar, algum tempo depois, um texto escrito por uma dessas pessoas e que consegue o que eu não consegui: cristalizar, tornar tangível e perceptível a outros um dado momento, um sentimento, uma ideia ou sensação. E só posso abanar a cabeça e dizer "Bolas... quem me dera, raisparta." 
E entre a frustração e o maravilhamento leio e releio a crónica ou o excerto, desejando ter um centésimo daquela mestria, revendo-me a cada frase, encontrando-me em cada parágrafo. Acabando por chegar à conclusão de que tenho de trazer esse texto para aqui, afixá-lo com cavilhas para que fique bem seguro e exposto para ser lido, para que eu possa dizer "Era isto! Era isto! Percebem agora?"

Quando for grande quero saber escrever como o Miguel Esteves Cardoso.

«Como é que se esquece alguém que se ama? Como é que se esquece alguém que nos faz falta e que nos custa mais lembrar que viver? Quando alguém se vai embora de repente como é que se faz para ficar? Quando alguém morre, quando alguém se separa - como é que se faz quando a pessoa de quem se precisa já lá não está?

As pessoas têm de morrer; os amores de acabar. As pessoas têm de partir, os sítios têm de ficar longe uns dos outros, os tempos têm de mudar Sim, mas como se faz? Como se esquece? Devagar. É preciso esquecer devagar. Se uma pessoa tenta esquecer-se de repente, a outra pode ficar-lhe para sempre. Podem pôr-se processos e acções de despejo a quem se tem no coração, fazer os maiores escarcéus, entrar nas maiores peixeiradas, mas não se podem despejar de repente. Elas não saem de lá. Estúpidas! É preciso aguentar. Já ninguém está para isso, mas é preciso aguentar. A primeira parte de qualquer cura é aceitar-se que se está doente. É preciso paciência. O pior é que vivemos tempos imediatos em que já ninguém aguenta nada. Ninguém aguenta a dor. De cabeça ou do coração. Ninguém aguenta estar triste. Ninguém aguenta estar sozinho. Tomam-se conselhos e comprimidos. Procuram-se escapes e alternativas. Mas a tristeza só há-de passar entristecendo-se. Não se pode esquecer alguém antes de terminar de lembrá-lo. Quem procura evitar o luto, prolonga-o no tempo e desonra-o na alma. A saudade é uma dor que pode passar depois de devidamente doída, devidamente honrada. É uma dor que é preciso aceitar, primeiro, aceitar.»

Miguel Esteves Cardoso in "Último Volume" - encontrado aqui.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Um dia qualquer

Há anos que cá por casa o dia 14 de Fevereiro é apenas mais um dia como outro qualquer. Nenhum de nós celebra aniversário neste dia, nem sequer o gato.

Chateia-me que existam pessoas que acham que "dar" no âmbito da relação é lembrar-se religiosamente de aniversários, Natais e S. Valentim enquanto no resto do ano se marimbam para qualquer pequeno gesto de carinho.

Estaria a mentir se dissesse que "gestos grandiosos" não me impressionam - na realidade, impressiona-me mais o esforço colocado no acto do que o dinheiro gasto. Dou mais valor a quem resolve aprender a pintar, para criar pelas próprias mãos um quadro para oferecer, do que a quem compra um carro topo de gama ou um "cachucho" de vários milhares. Mas daria ainda mais valor se o pintor escolhesse algo para ser feito por ambos.

Se sou romântica? Só um bocadinho. Q.b., acho eu. Dou valor a coisas feitas a dois, mas nem tudo tem de ser feito a dois. Passeio à beira mar ao fim de tarde? Se não estiver a chover torrencialmente, sim. Tratar dos impostos? Nem pensar, a menos que ambos sejam contabilistas e estejam atulhados de trabalho - mas aí isso torna-se apenas "mais um dia no escritório".
Acima de tudo, tem de ser algo a que ambos dêem valor, de que ambos gostem. Não algo para um ostentar e outro sentir-se avassalado. Nem algo para um contar e mostrar a todo o mundo no fb "olhem como sou fixe e extravagante" enquanto o outro desejaria ter um saco de papel enfiado na cabeça.

Falo por mim: gostaria mais de um serão caseiro com boa comida, vinho, um sofá, um edredão quente e um DVD, do que um jantar de luxo naqueles sítios onde eu nem sei para que servem todos os garfos, mais champanhe e camarote VIP num espectáculo de um artista que não aprecie. No entanto, há quem goste, e acho bem que nesse caso a outra parte, se puder, lho proporcione. Mas também acho irrealista e insensível que uma das partes espere que a outra lhe ofereça um encontro de luxo quando sabe que no resto do mês a mesma pessoa terá de contar os tostões para beber café ou jantar decentemente.
Odeio exigências baseadas no que o resto do mundo espera que se faça ou goste.

Para mim, e simples: expectativas realistas e cada um saber aquilo de que o/a outro/a gosta. E tentar proporcionar pequenos momentos que façam ambos felizes. Não tem de ser no dia 14 nem sequer em Fevereiro. Melhor ainda num dia "só porque sim", porque apeteceu, porque por mero acaso encontrámos na montra de uma pequena loja algo que sabemos que a outra pessoa irá apreciar.

Mostrar-lhe, com um pequeno gesto, que não é num só dia que nos lembramos, mas sim todos os dias que trazemos essa pessoa no coração.

Como não tenho quem me convide a ficar, abraçados, junto à janela enquanto lá fora a tempestade ruge e os relâmpagos parecem rachar o céu em dois, nenhum dia é especial nem "porque sim". Este e todos os outros em que assisto ao magnífico espectáculo da natureza sozinha, não passam de um dia qualquer.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

[Palavras de outros]


Recolho o mel, guardo a alegria e digo-te baixinho: "Apaga as estrelas, vem dormir comigo no esplendor da noite do mundo que nos foge".

Al Berto - O Último Coração do Sonho

sábado, 30 de janeiro de 2016

O dia seguinte

Ontem, alguns sorrisos tristes ou sem jeito.
As frases.
"Faz-me confusão"
"Não faz sentido"
"Já??"
"Que pena..."
Os adeus foram poucos pois só alguns sabiam. Os outros foram às suas vidas, aos seus horários, voltaram para as suas famílias como habitualmente.
A vida continuou.

Hoje, o regresso.
O lugar vazio.
 As perguntas, os telefonemas, as mensagens.

A alguns km, uma corrida. Tanto para fazer, tão pouco tempo

O regresso rumo a um breve reencontro combinado, que originou outros não planeados.
Mas nessas caras rapidamente viradas só havia indiferença.

O reencontro dos amigos.
A saudade que já marca presença.
O calor de um abraço apertado de despedida, e os risos na promessa de nova data.

A tristeza que alastra e se instala, mitigada por palavras amigas, inesperadas.

A vida continua.
E continuará.

sábado, 23 de janeiro de 2016

Mate

Calculava-o. Previa-o.
Ainda assim esperava que não acontecesse. Que me tivesse sido dado mais tempo. Tempo para continuar, para fazer, para crescer e ser. Tempo para estar.

Mas aconteceu, e nada posso fazer.
Acabam os bons dias vivaços ou apagados, os passos calados no corredor alcatifado, os sorrisos abertos que chegam aos olhos e os sorrisos falsificados de cortesia.
Acabam os debates e as conversas.
Acaba a música e a partilha.
Acabam-se as vozes.

Sobram alguns dias ainda no mesmo local.
Dias para cumprir calendário e terminar tarefas.
Dias para deixar uma lembrança positiva para trás e guardar em mim imagens, sons e (algumas) pessoas.
Ecos de dois anos intensos.

Pessoas que levarei comigo na memória e recordarei com saudade até que a vida nos permita cruzar novamente caminhos e recomeçar onde pararmos.
Pessoas a quem levo no coração.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

O sentido das palavras


'Writing is learning to say nothing, more cleverly each day' – William Allingham

Nem sempre o que escrevo tem sentido.
Às vezes não tem, mas é acidental.
Ás vezes não tem, e é propositado.

Muitas vezes as palavras têm um sentido mas não um propósito. Servem para exprimir mas não necessariamente para comunicar. E muitas são as vezes que tenho escrito dessa forma, porque há coisas que não se podem gritar aos ventos, e outras que até em segredo podem ser problemáticas.


«Mas... se não é para comunicar, porque escreves?»

Escrevo porque tenho de escrever, de expurgar, de libertar o que me preenche ao ponto de sufocar. Traduzi-lo em palavras é a forma mais simples de resolver a situação, porque permite remover o peso, o sufoco, e cristalizar o momento de forma a que, se quisermos, possamos revisitá-lo mais tarde, já munidos de outra perspectiva e quiçá outras ferramentas.
Mesmo quando pareço estar a escrever para alguém, na realidade escrevo para mim mesma, porque sinto que tenho de o fazer. Quando o que nos preenche, nos confunde, nos alegra ou despedaça está relacionado com outra pessoa, torna-se mais fácil escrever dirigindo-lhe as palavras. Sentimos que "dissemos o que tínhamos de dizer", mesmo que o "receptor" não esteja sequer ciente do facto de que aquilo que escrevemos lhe era supostamente destinado.


Mas há alturas em que as palavras são medidas e calculadas, em que queremos que tenham o peso e contornos certos, porque queremos dizer o suficiente mas não demasiado. Essas palavras podem ser perigosas. Um adjectivo a mais, um tempo verbal trocado, e expomos o que não queríamos ver divulgado. E num faux-pas como esse, quando a verdade fica exposta na máxima força da sua nudez, resta-nos apenas lançar mão ao manto diáfano da fantasia e... fingir que é a fingir.

Às tantas, tantas são as letras e as voltas do fingidor, que todos acreditam que a dor, a verdadeira, é fingida. E eu rio-me, vestindo a capa do fingidor: fingindo escrever sobre nada quando quero dizer tudo.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

O outro lado do espelho

"Só sabemos, seguramente, de uma amizade ou de um amor, o que temos pelos outros. De que os outros nos amem nunca poderemos estar certos. E é por isso, talvez, que a grande amizade e o grande amor são aqueles que dão sem pedir, que fazem e não esperam ser feitos; que são sempre voz activa, não passiva"

- Agostinho da Silva, Sete Cartas a um Jovem Filósofo.

Sei-me.
Sei o que o coração me diz e o que me pede.
Sei os desejos que me preenchem e os sonhos que aconchego.
Sei a vontade e o domínio, a tentativa e o controlo.


Sei o que é abdicar da esperança.

Nada pude pedir e nunca pedi.
Dei, apenas.

E dei, incansavelmente.
Em sonhos e nas fantasias que teci, que desenhei, que criei com palavras não ditas na minha imaginação.


Mas fiquei-me de mãos cheias sem ter a quem entregar o que tinha para dar.

Há muito que vivo vendo a vida real como através de um vidro, a vida onde nada sou e nada do que eu digo importa.
Escolhi o outro lado - o outro lado do espelho, o lado da fantasia, onde posso gritar ao vento o que sinto, onde o sonho é vivido e alguém me dá as boas-vindas de encontro ao peito num abraço demorado.

E espero, mesmo sem esperança, que um dia haja quem tenha a vontade e a coragem de me desafiar as fantasias e trazer-me de volta ao lado da realidade.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

All I Want



I don't want a lot for Christmas
There is just one thing I need
And I don't care about the presents
Underneath the Christmas tree

I don't need to hang my stocking
There upon the fireplace
Santa Claus won't make me happy
With a toy on Christmas Day

I just want you for my own
More than you could ever know
Make my wish come true
All I want for Christmas is you

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

Luar

Haverá alguém que não goste da lua cheia?
De a ver, redonda, prateada e brilhante no céu?

Nunca o escondi: gosto da Lua e do luar, e especialmente de deixar a mente vaguear quando os meus olhos se perdem a contemplar a lua, ou aquilo que ela ilumina.
É como se já não tivesse os pés na terra, se estivesse naquele momento a voar na direcção desse outro planeta, tão fortemente atraído pela Terra mas sem poder aproximar-se - pois, se tal acontecesse, seria uma catástrofe.

A páginas tantas, dou por mim a comparar-me à Lua: grande, redonda e impossibilitada de se aproximar de quem quer que seja que a atrai. E, porque a atracção é tão grande mas existem forças que a impedem de se deixar levar pela gravidade, a pobre está a desfazer-se.
Sim, é verdade. Vão lá ler e depois voltem.

A Lua está a desfazer-se; a atracção focada na Terra é o que a mantém em movimento, para nossa maravilha, mas ao mesmo tempo é também o que a destrói.

Não brilho como ela.
Não devolvo com esplendor a luz que incide sobre mim.
Não lanço um lençol cor de prata sobre as águas do oceano.
Não danço de forma certeira mas vertiginosa um bailado à volta de alguém
Não me ergo lentamente sobre o horizonte, densa, cor de açafrão, pronta a inspirar poetas e cantores.
Não arrasto comigo as marés à medida que me movo à volta do foco da minha atenção.

Não sou nada disto.
Na realidade, não sou nada, não valho nada.
Não arrasto marés se me mover - a menos que caia numa banheira cheia e acabe causando uma inundação no andar de baixo.
Não causo admiração pelo meu mistério.
Não inspiro ninguém, e ninguém se enamorará do meu brilho.
Ninguém se emocionará ao ver-me dançar.

Sei que, se fizesse o que a alma tantas vezes pediu, seria o caos, a confusão, o ridículo.

E então aprendi a calar o coração com o punho.
Apagando-me um pouco.
Desfazendo-me um pouco.

Esboroam-se os dias até um dia me quebrar por completo; a cada dia o coração se racha mais e as lágrimas do mundo vão-me enchendo. Um dia os meus olhos reflectirão o luar - pois neles estará o oceano.


Mas ninguém mergulhará neste oceano, banhando-se de luar prateado.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

O som do mar

Há gostos partilhados que, por vezes, dão origem a experiências extraordinárias.

Foi esse o caso, hoje. Uma surpresa auditiva que me deixou um sorriso nos lábios, como quase sempre que ouço esta canção.

E, como quase sempre que a ouço, cerrei os olhos por instantes, e imaginei-me numa praia sobrevoada por gaivotas, com os pés descalços junto à rebentação - e no coração um desejo:

Abrir a janela e voar.


Obrigada, G.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

Sem mais

É que é mesmo isto... (tanto, tanto!)



há um passado um presente
gravado na mente
cismado na dor

um arrepio disfarçado
um olhar-te de lado
e um medo do amor

a palavra que se nega
o recuo a entrega
a balançar em mim

uma recta que se curva
um olhar que se turva
e um medo do fim

(como é que eu hei-de apagar esta paixão?)
(como é que eu hei-de apagar esta paixão?)

um verso que se conjuga
um verbo e a fuga
por dentro de mim

vou pôr minhas mãos no fogo
arriscar-me no jogo
e dizer-te que sim

(como é que eu hei-de apagar esta paixão?)

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Dezembro


This is my December
These are my snow covered trees
This is me pretending
This is all I need



And I'd give it all away
Just to have
Somewhere to go to
Give it all away
To have someone
To come home to

segunda-feira, 30 de novembro de 2015

terça-feira, 24 de novembro de 2015

Deep Green Sea


It's always the same, wake up in the rain
Head in pain, hung in shame
A different name, same old game, love in vain
And miles and miles and miles and miles and miles
Away from home again


domingo, 22 de novembro de 2015

Em surdina

Entranhas-te nos meus sonhos e sob a minha pele.
É apenas o desejo que preenche o espaço vazio ao meu lado e no entanto é como se conseguisse sentir-te aqui. Impalpável, mas aqui.

Os lábios entreabrem-se para sussurrar o teu nome e só a noite me escuta. Sei que não virás, que nunca virás, por isso fico-me com o sabor proibido de dizer assim, em surdina, o que calo todos os dias - ainda que já o tenha escrito tantas vezes em letras de variados feitios.

Só a noite me escuta mas o vento não me responde, ainda que ulule por todas as frinchas das janelas, clamando o seu poder e exigindo passagem de forma impiedosa. Estremeço, desejando mais uma vez que aqui estivesses, querendo abraçar-te e ser-te porto de abrigo e conforto contra o vento e a dor.

Recolho-me ao leito frio e segredo uma vez mais o teu nome ao fechar os olhos, invocando o sonho onde irei ao teu encontro dos teus braços - algures num mundo irreal
Adormeço com o teu nome nos lábios, sorrindo.

Corres-me nas veias e a cada batida do coração percorres todo o meu corpo.
Sem o saberes, trago-te comigo. Sempre.

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Lost and found

Will you let me lose myself
in you?
Or simply tell me to
get lost
somewhere
any place
anywhere
anywhere
but where you happen to be?

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Vazio

Contemplo o espaço
vazio
o aqui onde queria que estivesses
e toldam-se-me os olhos
enquanto
o coração se amarfanha em tristeza.

Na noite escura,
o tempo dobra-se sobre si mesmo,
os minutos tornam-se horas
e a manhã chega sem avisar.

Com ela chega o tempo
de vestir a personagem,
e o sorriso plastificado,
irreal.

Entro no palco do dia-a-dia
rotineiro, em que nos cruzamos
sem que os nossos passos
alguma vez
sigam na mesma direcção.

O tempo escorre como areia
a noite cai e com ela o pano
de mais um acto.

Parto rumo ao silêncio
do espaço onde não estás,
e horas (ou talvez anos) depois
quedo-me novamente
em contemplação.

No escuro
em que não te ouço respirar
deito-me na curva da tua ausência
e adormeço à escuta
do eco dos teus passos que não chegarão.

terça-feira, 17 de novembro de 2015

Cais

Nunca me encontrarás presa a um sítio pelas amarras do hábito, da rotina, do mero conforto - o que não é o mesmo que dizer que não fico em terra. Mas nem sempre a terra é o lar.

Posso ficar, ancorada, por minha vontade; por um desafio, um projecto, uma pessoa, pois qualquer destes factores implica paixão, envolvimento, entrega. E esperança.

Posso ficar em terra à espera da volta da maré, de provisões, ou que o vento melhore. Posso até estar apenas à espera do momento certo. Mas não posso ficar por ficar, presa a um lugar onde não pertenço e a algo que já não me mereça a entrega ou retorne a paixão.

Posso ficar em terra por falta de sítio para onde ir - porque a viagem é dura, e sem saber se há destino, sequer, torna-se numa forma de lento suicídio. Não me preocupa morrer durante a viagem, mas sim morrer à deriva sem um horizonte, um propósito, um lugar que coração e alma queiram alcançar. Lar não é onde ficamos apenas. É onde nos sentimos inteiros e queremos permanecer.

Até encontrar esse lugar, posso ficar em terra, quiçá por muito tempo. Mas sempre por escolha ou à espera. Nunca me encontrarás presa pelo medo de arriscar a viagem em si, pois se há um destino, um desafio, um horizonte a atingir, mais tarde ou mais cedo içarei velas e partirei sem olhar para trás. E se a morte me sair ao caminho, encontrar-me-á de pé, desafiante, esperançosa, com a alma ao alto e um sorriso nos lábios, viva e decidida a arriscar-se por aquilo que o coração deseja: encontrar o lar.



quinta-feira, 12 de novembro de 2015

Leónidas

Numa noite de estrelas cadentes,
há meses que pareceram anos,
rendi-me ao infinito
das longas horas
sem te saber
(e tu, sempre tão perto).

Outras estrelas estão agora
de passagem,
e continuo sem te saber
e sem saber
se sabes
que és tu quem eu queria
ao meu lado, a contá-las.

Mas tu,
tu continuas
(a cada dia tão perto)
sem dar qualquer sinal
de que suspeites sequer
o que és e significas
(como é possível
viver dentro do coração
de alguém
e não o saber?)

Outras estrelas virão
e passarão, céleres,
pelo firmamento
numa noite como esta.
Será que te saberei
então?
E tu, onde estarás?
Será que (me) saberás?

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

Parte de mim

Sou o que vi e vivi,
o que senti e experimentei
Sou onde fui e não fui,
o que fiz bem e o que errei.

Sou tudo aquilo que amei
e amo, por isso sou tu
sou as gentes da minha vida
as que trago no coração nu.

Tudo o que passou por mim,
tudo o que quis absorver,
tudo isso agora sou eu
nesta minha forma de ser.

Sou vento, sol e maré,
sou flecha, árvore, lua
sou o que trago cá dentro
sou de ninguém e sou tua.

Intimidade

"(...)
Intimidade requer tempo, requer dedicação, requer interesse profundo. Intimidade é oposto de superficialidade.
Intimidade não é saber a cor da roupa interior. Intimidade é saber a cor dos sonhos, a cor dos olhos quando choram, a forma exacta dos lábios quando sorriem. Intimidade não é ver alguém de lingerie... isso tu podes ver a qualquer momento, com alguém que já conheces há muitos anos ou há poucas horas. Intimidade não é ver alguém despir-se das roupas. Intimidade é ver alguém a despir-se das barreiras, dos medos, das suas verdades incontestáveis, das suas certezas absolutas. Intimidade é a entrega, mas não a entrega do corpo. Intimidade é a entrega mais difícil: a da alma e do coração."

do texto de Nat Medeiros, aqui

domingo, 8 de novembro de 2015

Acreditar

Também eu estou à espera de mim
Algo me diz que a tormenta passará.


É a vida que segue e não espera pela gente
Cada passo que demos em frente
Caminhando sem medo de errar
Creio que a noite sempre se tornará dia
E o brilho que o sol irradia
Há-de sempre me iluminar

sábado, 7 de novembro de 2015

Convite

Anda, vem sentar-te aqui
à beira do sonho,
deixa-me mostrar-te
as suas cores
e descrever-te
o seu sabor intenso

Fecha os olhos e recosta-te
sente na face o calor
do sol de Inverno
e na pele a brisa
do entardecer

Enquanto repousas
fico ao teu lado
e conto-te a história
deste sonho, como nasceu,
e até onde quer ir

Não adormeças! Este sonho
é para viver de olhos abertos
há um barco à espera, se tiveres
a coragem de arriscar
e seguir
até onde o sonho nos levar.

Vens comigo?

sexta-feira, 6 de novembro de 2015

Luzes na escuridão

Uma parede a toda a volta.
Foi essa a sensação esta noite, na estrada, ao sair do trabalho. Nevoeiro denso a ponto de não saber a que distância estava a saída que eu tinha que apanhar, ou sequer se já a tinha passado sem dar por isso.
"Algodão em rama", "sopa de ervilhas", já ouvi várias comparações para tentar descrever um nevoeiro assim espesso. Mas nenhuma consegue transmitir a ideia, a sensação de isolamento e desorientação que se tem numa noite destas, em que perdemos a noção de onde estamos e para onde vamos. Só as luzes de outros carros nos mostram que não estamos sozinhos.

Às vezes, a vida coloca-nos em situações em que nos defrontamos com a mesma sensação. A noite pode estar perfeita e o céu claro de luar, mas isso não impede que tudo nos pareça escuro.
Num momento ou noutro, por diferentes razões, acontece-nos a (quase) todos: sentir que estamos perdidos no nevoeiro e não sabemos para onde ir.
Nessa altura, para os que têm essa sorte, há uma luz que se acende, uma mão que se estende, uma palavra que nos indica o caminho.

Os Amigos são as luzes que nos guiam de volta a casa.

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

Paperboats

Again and again, I have written
Words of love and hope
words of secret sadness
for what I could not have.

Again and again, I have woven
words into tapestry
a fabric of blissful dreams
that wouldn't come true.

Again and again, I have folded
words into origami
paperboats sailing to somewhere
through the night.

But the tides were too strong
and my paperboats all fell apart
in the deep waters
of silence.

From the cold, rugged shores
I have watched them sink
and all that was left
are words for sorrow.

Stripped of words,
I draw on the sand
a loving kiss for no one.

Dreams


(This and a lot more awesome Smiths mash-ups can be found here)

Last night I dreamt
That somebody loved me
No hope - but no harm
Just another false alarm

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Guess what?

Just switch the speaker.


I am everything you want
I am everything you need
I am everything inside of you
that you wish you could be
I say all the right things
at exactly the right time
but I mean nothing to you

... and I don't know why.

Fade Into You

terça-feira, 3 de novembro de 2015

Radio silence

Chega.

Não consigo continuar esta caminhada insana, em que cada pé tacteia o chão à sua frente antes de pousar, pois tudo em volta é areia movediça.
Não consigo continuar a amordaçar-me, a controlar constantemente o que digo com receio de dizer a coisa errada.
Não consigo continuar a apagar metade do que escrevo e a amarrar palavras com receio de que as letras me traiam, deitando todo o esforço a perder.

Nunca fui pessoa de desistir sem sequer tentar - mas quando está garantido o equivalente a uma derrota, mais vale aceitar à partida que não há nada a fazer e poupar as forças para suportar a dor que há-de vir.

E ela virá.

Virá, escura e pesada como um trem a vapor, e igualmente imparável.
Virá, escura e ominosa como um Dementor e igualmente devastadora.
Virá, escura e imensa como uma noite de tempestade - pois não há bonança em dias de que não faças parte.

No deserto em mim, visto-me de silêncio.

Too late


But if I fall for you, I'll never recover
If I fall for you, I'll never be the same






domingo, 1 de novembro de 2015

[Palavras de outros]: Eugénio & Sophia


"Devias estar aqui rente aos meus lábios
para dividir contigo esta amargura
dos meus dias partidos um a um."

Eugénio de Andrade

--- § ---
[Os grandes poetas o disseram, melhor do que eu alguma vez poderia.
Sobra-me apenas uma palavra: Faltas-me.]
--- § ---

"Num deserto sem água
Numa noite sem lua
Num país sem nome
Ou numa terra nua
Por maior que seja o desespero
Nenhuma ausência é mais funda do que a tua."

Sophia de Mello Breyner Andresen 

Song For Someone

If there is a light you can’t always see
And there is a world we can’t always be
If there is a dark within and without
And there is a light, don’t let it go out



sábado, 31 de outubro de 2015

G.8

Contas semanas como quem desfolha páginas de um livro de dor e saudade.

Quisera abraçar-te, dizer-te algo que te confortasse mas não sei o quê. Nem sei se deixarias, sequer - vejo-te casual a ponto de eu não perceber até que ponto a face que mostras é a de um estóico ou apenas máscara destinada a afastar quem não interessa.

Não queres nada de mim, mas ainda assim algo nesta nossa condição de seres humanos guarda em si espaço para a empatia e o carinho nas muitas formas que pode envergar. É só o que posso oferecer; e, se porventura alguma vez vieres a precisar, estarei por perto.


Allons

Há muitos anos, quando visitei Paris, trazia música na alma, música que reverberava a cada passo pela cidade, a cada ponto de passagem identificado.

Há muitos anos, quando visitei Paris, tive a certeza de estar num lugar onde a magia podia acontecer.

Sei que pode.
Talvez um dia lá volte com a pessoa certa e o confirme.
Ou talvez nunca o possa fazer e guarde no coração o sonho até ao fim dos meus dias.

(borrowed from here)

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

O porquê dos porquês

Hoje pediram-me para fazer um Teste de Dominância Cerebral e o resultado está aí em baixo.
Não é que não estivesse à espera - mas ao olhar para o diagrama só me ocorreu uma palavra: "fónix!"

EXPERIMENTAL - Dominância de Superior Direito
Tem insights, imagina, especula, corre riscos, é impetuoso, quebra regras, gosta de surpresas, percebe oportunidades.
 Gosta de arriscar-se, inventar soluções, desenvolver uma visão, ler variedade, fazer projetos, causar mudanças, fazer experiências, vender ideias, desenvolver novidades, ver o quadro geral, ter muito espaço, integrar ideias, lidar com o futuro, enxerga o fim desde o começo, é visual.

Para quem tiver curiosidade de ser "diagnosticad@"...
  Teste de Dominância Cerebral

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

No Escuro

Abrir jogo - II

Isto de arrumar as ideias e passá-las a escrito tem muito que se lhe diga.
Vamos cá a ver... onde é que eu ia? Ah pois, abrir o jogo. Arriscar e ver no que dá.

Não me parece.
Não sou burra, tenho olhos na cara e sei como sou.

Primeiro, o exterior. Não sou "uma estampa"; não sou sequer atraente e já passaram muitos anos desde a altura em que podia despertar alguma curiosidade, baseada principalmente num aspecto vagamente exótico. Guess what? Actualmente este país está cheio de gente de todos os cantos do mundo, pessoas visualmente muito mais interessantes. Em qualquer sítio se encontra gente assim. Portanto, strike 1.

Agora o interior. Tenho "mau feitio" e sou difícil de aturar. Já mo disseram muitas vezes na cara e admito que é verdade. Irrito-me e às vezes digo coisas que não deveria. Sou retorcida, nada submissa, e não aceito um "porque sim" como resposta. Às vezes sou vingativa, mas só um bocadinho (o suficiente para a outra parte perceber que não me comem por parva). Gosto de ganhar, mesmo a feijões, e só tenho bom perder se o adversário não fizer batota (que o diga um certo tabuleiro de Monopólio). Strike 2.

Finalmente a cobertura do bolo: não tenho paciência para gente poucachinha, sem imaginação, sem ambição, que não gosta de ler nem aprender e acha que tudo é uma perda de tempo, ou que deve ser feito sempre, sempre, sempre da mesma forma "porque sempre foi assim". Arrrghhhhh! Como detesto essa frase! Gosto de dar, de criar, de inventar, de imaginar, de descobrir, e detesto sentir-me manietada. Gosto de coisas e pessoas que me desafiem intelectualmente, pessoas que consigam manter uma conversa decente mas não sempre sobre a mesma coisa, pessoas com quem consiga estabelecer múltiplos pontos de contacto de interesses. Há muita gente assim por aí, mas não ao meu alcance. Strike 3, I'm out.

No final de contas, é a isto que se resume: demasiados pontos negativos para poder ter um mínimo de chance. Então para quê arriscar quando se sabe qual vai ser o resultado?

Porque sim.
Porque amar, amar a sério, não depende de reciprocidade.
É, simplesmente.

Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure



Quem sabe um dia a sorte me sorria...

terça-feira, 27 de outubro de 2015

Abrir jogo - I

Teoricamente, isto devia ser algo super-fácil. Mesmo! Muito fácil para quem, ainda por cima, tem experiência prévia. Mas não é bem assim.

"Quem não arrisca, não petisca!", "Quem não pede, passa fome" e outras frases do género declaram o que parece ser uma verdade de La Palice: se não tentarmos alcançar o que queremos, é muito provável que não venhamos a obtê-lo. Isto é trigo limpo, farinha amparo, se estivermos a falar de coisas como ganhar na Lotaria ou conseguir acesso a um curso, por exemplo.

É tudo muito bonito mas existe o reverso da medalha (claro!!!).

"Quem anda à chuva, molha-se", que é como quem diz, quando alguém se expõe, arrisca-se a que algo (ou tudo, numa bela demonstração da Lei de Murphy) corra muito mal e o resultado seja custoso. E quando o que está em causa são sentimentos... o "mal" passa a "terrivelmente mal" e "custoso" transforma-se em "francamente doloroso".

Traduzindo em miúdos: quando corre mal, dói p'ra catano.

É que, quando admitimos perante nós próprios e perante os outros que temos 'um afecto muito grande' por alguém, expomo-nos substancialmente. Ficamos desprotegidos, abrimos o flanco para quem quiser atirar lança ou pedra.
E como é quando abrimos o jogo, expomos o coração e o sentimento a quem é o objecto desse afecto? Altera-nos de imediato o ritmo cardíaco. O coração fica apertado, cada batida em esforço como se o sangue fosse pastoso. É a antecipação, o momento de maior perigo. E dói, esta vulnerabilidade, esta entrega, este depositar do sentimento nas mãos de alguém que não sabemos como irá reagir.

Quando essa reacção é positiva é como ganhar uma corrida, ver o nascer do dia seja a que horas for, uma aurora de bonança saudada por inúmeros arco-íris de uma chuva que acabou de partir.

Quando é negativa... mesmo que já a esperemos, custa, custa sempre.
Pode ser como se o chão desabasse e nos sentíssemos cair sem controlo, incapazes de saber o que acontece a seguir ou se vamos sequer sobreviver ao embate.
Pode ser como um corte de papel, daqueles que a maioria das pessoas nem vê, de tão pequeno que é. Mas quem o tem na carne sabe bem onde está e a dor que causa.
O efeito pode ser grande ou pequeno, mas nunca, nunca ficamos incólumes, nunca ficamos como se nada tivesse acontecido. Quem disser que não sentiu nada ao ver os seus sentimentos rejeitados, na realidade nunca amou sequer.

É por isto que custa abrir o jogo - mesmo tendo a noção de que, se não o fizermos, não alcançaremos nada pois ninguém o fará por nós.
O que queremos afinal?

[Palavras dos outros] Coisa Amar

Contar-te longamente as perigosas
coisas do mar. Contar-te o amor ardente
e as ilhas que só há no verbo amar.
Contar-te longamente, longamente.

Amor ardente. Amor ardente. E mar.
Contar-te longamente as misteriosas
maravilhas do verbo navegar.
E mar. Amar: as coisas perigosas.

Contar-te longamente que já foi
num tempo doce coisa amar. E mar.
Contar-te longamente como dói

desembarcar nas ilhas misteriosas.
Contar-te o mar ardente e o verbo amar.
E longamente as coisas perigosas.

(Manuel Alegre)

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

A simple truth


"You make my heart feel like it’s summer
When the rain is pouring down.
You make my whole world feel so right when it’s wrong
That’s how I know you are the one."


quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Escultura

Neste lugar onde não estás
capturo o vento e agarro o ar
fecho os olhos, e de memória
moldo a tua face
que os meus dedos nunca tocaram,
desenho o teu sorriso e torneio
a traços largos o teu corpo.

Se alguém me visse, pensaria
que estou louca ou em transe
de olhos fixos num ponto
à minha frente
mas o que não vêem
é o teu eco, esculpido no nada
espécie de fantasma que olho
com incomensurável ternura...

Como uma estátua invisível,
a não presença que, esta noite,
quando adormecer sorrindo,
ficará ao meu lado,
no lugar
exacto
onde queria que tu estivesses.

(E talvez, nos estranhos caminhos dos sonhos, nos encontremos para lá da alvorada)

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Think about it...

(...)
Life ain’t nothing if it ain’t hard
It’ll show you who you truly are
Knock you down when you get too tall
Till you spun around in a free fall

But somewhere out there past the storm
Lies the shelter of your heart
(...)

So how hard can it be (how hard)
To share your love with me?
How hard can it be
To rise with me each morning
How long it feels like
We will live forever
But I fear
That time can hide the years
Like we were never here
So hold on tightly my dear

Before we disappear
Before we disappear

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

A noite passada

... sonhei contigo.



Sonhei que nos encontrávamos algures numa praia, longe de tudo, longe de todos, em tarde de vento e chuva. Que caminhávamos na areia, conversando, de mãos nos bolsos; lado a lado, protegidos do vento por casacos quentes e dizendo disparates ao mesmo tempo que falávamos de coisas sérias.
Que respirámos o silêncio mesclado com vento, e nos rimos, caminhando, até perguntares - se era verdade, se tinhas lido bem as entrelinhas e entendido bem todas as pistas.

Sonhei que fechava os olhos ao vento, o assobio nos meus ouvidos quase ensurdecedor - desculpa perfeita para fingir que não tinha ouvido, só para não ter de responder e de ouvir a seguir o que receava. Que bebi o vento mesclado com chuva, e respirei maresia, tentando ganhar coragem - para te dizer que sim, que era e é verdade, que é a ti que falo e me dirijo quando escrevo aqui sobre o que sinto, e que tudo o que aqui escrevo e sinto é verdade e é tão intenso como o Mar.

Sonhei que fizeste silêncio, que foste silêncio até eu ter de me virar e ver para ter a certeza de que não te tinhas ido embora. Que não me olhaste nos olhos, porque até nem nunca olhas, mas nessa hora em que não me olhaste o meu coração se apertou e fez pequenino. Que respiraste silêncio mesclado com maresia, as mãos metidas no fundo dos bolsos até endireitares as costas e olhando para o céu cinzento disseste apenas "ok".

Sonhei que de novo foste silêncio e então também eu fui silêncio enquanto caminhávamos de volta ao lugar onde tinham ficado os carros; lado a lado, de mãos nos bolsos mas carregando o silêncio entre nós. Que, sem me olhar, disseste apenas "até amanhã" e te meteste no teu carro, conduzindo sob a chuva fina mas incessante. E que choveu e continuou a chover até que cheguei a casa, envolta em silêncio, sem saber o que fazer, o que dizer, o coração pequeno mas leve por já não encerrar um segredo tão grande.

Adormeci com maresia nas veias e acordei confusa, sem saber se tinha sonhado ou não, se apenas sonhei ou sonhei que sonhei.
Quando cheguei à janela, chovia.
E senti uma imensa vontade de caminhar junto ao mar contigo.

domingo, 18 de outubro de 2015

Música

... e chocolate. Deliciosa combinação.



"Eu quero ser para ti a camisola dez
Ter o Benfica todo nos meus pés
Marcar um ponto na tua atenção
Se assim faltar a festa na tua bancada
Eu faço a minha ultima jogada
E marco um golo com a minha mão"


Sorri, pensando em ti ao ouvir isto - por múltiplas razões.
(Gosto de imaginar que. por vezes, talvez te lembres de mim ao comer um pedaço de chocolate...)

Mas a verdade é que sorrio muitas vezes ao pensar em ti: recordando algo que disseste, ou apenas o som da tua voz ou do teu riso. E sinto uma e outra vez aquela ternura de que já falei, infinita e doce.

Embalada por essa ternura adormeço, desejando que estivesses a meu lado.

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Seria?



Se um dia um anjo fizer
A seta bater-te no peito
Se um dia o diabo quiser
Faremos o crime perfeito

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Unsung

Unwilling?
Undesired...
Unrequited.

"Half of love is just lo" - which is how I feel everytime I realise there is no chance, no time, no place, no way for me to be with you.

Nocturno

Anoiteço na minha própria penumbra.
Sem saber como, fui apanhada no rebordo do teu campo gravitacional - de longe, como Plutão, que nem direito a ser planeta tem, mas que dia após dia orbita fielmente a sua estrela, ofuscado pela grandeza imponente de um Júpiter ou pelo esplendor anelado de um Saturno.

Às vezes queria ser um cometa, sabes? Poder largar amarras e partir rumo a ti, passar tão perto que não terias outro remédio a não ser ver-me, mesmo ver-me, enquanto me aproximasse e numa rápida passagem contornar-te, vendo-te de todos os ângulos, antes de voltar a cruzar o espaço rumo à distante Oort.
Saber que por um instante no tempo teria a tua atenção, ainda que mesclada do receio de que eu perdesse o rumo e me despenhasse contra algo ou alguém, numa apoteose de caos e destruição.
Saber que passar demasiado próximo seria o meu fim - mas que talvez valesse a pena.

Como o Sol - quente, brilhante, e não te posso tocar, nem sequer aproximar-me demasiado... mas sei a tua luz e não preciso de ver-te para te saber lá. Deito-me e quando fecho os olhos tenho a tua imagem gravada no interior das pálpebras; no silêncio da noite as meninges trazem-me de volta o som da tua voz e do teu riso e por momentos é como se estivesse a ver-te.

Mas estou sozinha, e continuo sozinha, calada, no escuro, ouvindo o tiquetaque do relógio, perdida no turbilhão de pensamento e sentimento que me assola.

"Lying in my bed I hear
the clock tick, and think of you

Caught up in circles,
confusion is nothing new..."

Admitindo, finalmente, com um suspiro o quanto gostaria que estivesses aqui ao meu lado, adormeço.

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

Everything

Find me here,
And speak to me.
I want to feel you,
I need to hear you.




You steal my heart,
And you take my breath away.
Would you take me in?
Take me deeper now

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Esta infinita ternura

... frágil e delicada, que me preenche e me inunda até transbordar pelos olhos ao pensar em ti.

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

Já agora

Antes de mais, deixa-me dizer-te
que sei bem a diferença
entre sonho e realidade,
entre o vazio
e a presença.

Sei tanta coisa... sei
que a tua mão nunca tocou
carinhosamente a minha
e que nem sequer
sabes ao certo a cor
dos meus olhos;
que o teu braço não me envolve
de encontro a ti
e que nunca fiquei
sorrindo, a ver-te dormir.

Sei também que
se leres, sequer, estas palavras,
nem sonhas que te são dirigidas.

Então que me sobra?
Se não tenho o teu toque
se não tenho o teu olhar
se não tenho o teu abraço...
nesta realidade sem ti
resta-me apenas o sonho.
Por isso, dá-me licença,
deixa-me continuar a sonhar.

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

Cantando o invisível

Invisível aos teus olhos,
este mundo cá dentro
de cor e luz e melodia,
de dor mas também de sonho,
mundo oculto que carrego
comigo, sempre
enquanto a Vida nos move
como peças em tabuleiro,
e nos levanta em turbilhão
como folhas secas de Outono,
rodopiando sem saber
onde iremos parar.

Mas por um breve instante, um acaso
partilhamos o espaço onde o vento
nos deixou.
E eu fico-me aqui
no silêncio de um sorriso
enquanto amordaço as palavras
quase todas
e tranco o desejo
num canto do coração,
a cadeado, código e chave
antes que o consigas ler
nos meus olhos.

Deixo-me embalar em fantasia
breve
sabendo que o vento
acabará por voltar a levar-nos
mas, no aqui e no agora,
as palavras que sobram, essas
liberto-as em canção
e fingindo não dizer nada
digo-te tudo.

 

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

As palavras do Mestre

Nunca, como hoje, a Autopsicografia me pareceu fazer tanto sentido...

porque, ao dizer, finjo
mas, ao fingir, digo
e entre o que digo...........................
....................................e o que finjo
resta o que calo,
o que sinto.





(e tu não andaste em Hogwarts, pois não? ... pois.)

Rotina

De dia...
páginas, papéis, notas,
sons, música, conversas,
sorrisos, passos, pessoas
pausa
recomeça
palavras
palavras
palavras
trocadas, oferecidas,
escritas, atiradas,
guardadas
algumas caladas
até à despedida

De noite...
frio, o vazio
que guardo ao lado
fervente, a pele
que estremece
tristes, os olhos
que adormecem
desertos, os lábios
que cerro
sábio, o silêncio
que não quebro
perdidas, as palavras
que apago
inúteis, as entrelinhas
que não lês

todos os dias são teus
todas as noites são minhas


quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Análise gramatical de um sentimento

Amar não se conjuga no imperativo.

Ao amor amigo, cúmplice e construído entre iguais, fundação indispensável de uma relação sólida e duradoura, a esse amor com futuro mesmo quando o seu passado é recente, opõe-se a paixão avulso, esse sentimento volátil que vive o presente sem amanhã, esse fogacho breve que esbarra nas contrariedades ou se apaga após a concretização.

Além, é um outro país, o dos que não amam - aqueles para quem o amor é perda de tempo, ou mágoa, ou nada. Esses não conjugam, não vivem o verbo na pele. No seu mundo o verbo foi banido.

Amar, tal como chover, não se conjuga no imperativo.
Não posso ordenar que alguém me ame, tal como não posso ordenar que chova.
Mas dou por mim a sonhar no condicional, o sentimento suspenso naquilo que o embala e o abafa - este silêncio entre nós, que não devo, não ouso quebrar.
E, envolta nos sons delicados da fantasia, dos meus lábios escapa-se um murmúrio que só eu ouço.
Se eu te contasse...
se tu soubesses...

domingo, 6 de setembro de 2015

Tão perto, tão longe

Não sei o teu sofrimento de perto, mas sei que sofres.
Não sei a tua dor de perto, mas sei que dói
muito, e que nada posso fazer
para te ajudar.

Quisera dar-te mais do que palavras,
estender-te a mão, estreitar-te contra o peito
e dizer-te baixinho "Estou aqui."
ou nem dizer nada
e partilhar apenas essa dor
agigantada, que escapa
ao consolo de quem não a tem como sua.

São só palavras o que te posso dar.
Mas aqui, tão perto e ao mesmo tempo tão longe,
quero que saibas que não estás só.

terça-feira, 30 de setembro de 2014

Birds

Tão descansadinha que eu estava...
O calor deve tê-los afastado para outras paragens. Decerto alguém lhes sussurrou que já é Outono... voltaram, os malandros.  E com eles as recordações, aquele sabor agridoce do que podia ter sido mas não foi, do que foi dito e do que ficou por dizer.

Não há 'famous last words'.
Apenas momentos perdidos no tempo, na memória de outra eu que fui.

terça-feira, 6 de maio de 2014

Renewal

Passaram dias, semanas, meses.
A vida continuou a acontecer como sempre faz, indiferente às nossas alegrias ou preocupações.
Nós é que temos de lidar com elas, não é? De as viver, apre(e)ndendo lições.

Vou contar-vos uma coisa: aprendi algo nos últimos meses.
Aprendi que não basta ter apoio para dar "aquele passo" necessário.
Aprendi que não basta saber para onde se vai.
Aprendi que não basta que o caminho esteja iluminado.
É preciso coragem.
No exacto momento em que estamos à beira de dar "aquele passo", todo o mundo, todo o nosso mundo, se concentra num só momento que pode (re)definir tudo.
E aí... ou temos coragem de o fazer, ou não temos.

Tive receio? Sim, tive.
Mas fi-lo porque senti que tinha de o fazer.
Tive de reunir, de fazer crescer em mim a coragem de o fazer, de arriscar, de me atrever a deixar para trás o que era familiar (ainda que nem sempre agradável) - e aí todo um novo mundo se abriu perante os meus olhos, como se me presenteassem com uma carta de marear para terras que nunca visitei.

Tenho vindo a cortar amarras, a reunir abastecimentos, a preparar-me para essas novas paragens, novas realidades, novas experiências.
Aos poucos, ponho-me a caminho...

Estou a caminho do resto da minha vida.
Acho que vai correr bem :)

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Time

Another year is coming to an end.
I don't know what happened in the last few months... time seems to have gone around me without me realizing it. It just... flew.
My son is now taller than me (I'm average height but it seems he'll take after his Tai). His shoes look like small dinghies and might progress to yachts.

[Sigh]

Another year is coming to an end and I did not do many of the things I thought about doing.
You know how it is, "life is what happens while you're making other plans" and life kept happening and happening and happening and plans went down the drain.

[Sigh]

Another year is coming to an end and I still haven't got much to show for.
All I can say is that I'm living, learning, teaching, growing and nurturing.
Being a woman, being a mom, being a professional.
Being human.

Kids are grown up - or about to. I find myself talking to my son about serious questions: organ donation, sexism, domestic violence and abuse, alcohol, teen pregnancy, career choices.
I hear what he has to say and try not to impose my POV but rather make him think thoroughly about what we're discussing. Sometimes we go back to a conversation after a few days, after he had a while to let it sink in, and we discuss it again. We grow together (he grows up & I grow old).
My daughter is a bright young woman (already?!) who knows what she wants even if sometimes she needs help on figuring how to get there. She is thoughtful, considerate, warm, funny and a fierce defender of her loved ones and every thing she deems right and worthy.

Yep, I love my kids. A lot.

[Smile]

If my life is to be measured someday and I have nothing to show for but my children... well, I take pride in saying they are decent human beings on the process of becoming better ones. And that's a lot more than many people can say for themselves.

quarta-feira, 12 de junho de 2013

Madrugadas

Uma. Muitas.
São cinzentas e doem.

Quando o sentir nos enche e transborda
abrimos a porta à dádiva
oferta, partilha
mas abrimos também a porta à dor
ao abandono
ferida profunda

A madrugada dói, cinzenta.

A manhã passa em turbilhão,
cheia de afazeres da vida lá fora
das milhentas coisas que nos rodeiam
e de que não podemos, não devemos nos alhear
quando somos elo e não ilha.

O dia desliza até ao anoitecer
e enche-se o espaço de risos e imagens
palavras partilhadas aqui e ali
para manter afastado o silêncio ensurdecedor
deixado na esteira de quem não volta.

Vem o escuro, a pausa.
A luz que acendo todas as noites,
farol teimosamente erguido na mão do espírito
para alumiar um regresso que não acontece,
apaga-se no nevoeiro denso.
Alquebrada, a alma recolhe-se
enroscada no seu próprio regaço
sem mão carinhosa que a sossegue
sem outros sons que não o do próprio coração
e do respirar entrecortado de soluço.

Noite após noite adormece
de braços vazios
na madrugada cinzenta que dói.

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Note

[Suddenly, out of the blue...]

.......................
«preciso falar-te ao ouvido. Que estarei onde sempre estive, entre o rio e o vento, uma pedra e uma raiz, entre o sono e o sonho, a sombra e a lua. Dizer-te que preciso do teu amor feito de palavras. De cravar os meus dedos na tua memória e escrever os nossos silêncios com a minha língua na tua pele. E que são os teus braços que se fecham em torno de mim, num abraço, que fazem a minha casa.

F para R»

.......................
bilhete encontrado por Jorge Petroff numa fenda na base da terceira coluna do Templo de Diana, voltada para a Pousada dos Lóios.
.......................

(Jorge Phyttas Raposo, in Ventos Brancos)

quinta-feira, 6 de junho de 2013

Às vezes

Once upon a long ago, I believed. I actually thought we would be together, that our souls would become irrevocably entwined along with our bodies, since our minds already appeared to be in that state.
And I sang the body electric, back then.

But time has elapsed, faded, like sand falling between our fingers.
I miss that time, once upon a long ago,
when I would smile at the mere thought of you
and my heart would sing this song



Sometimes
when I look deep in your eyes
I swear I can see your soul.


I miss that.
I miss you.

sexta-feira, 24 de maio de 2013

Shard

Normalmente, este blog é o meu espaço de desabafos, partilha de escritos e de sons.
Espaços diferentes para coisas diferentes: não é meu hábito apresentar aqui as minhas experiências em desenho ou fotografia, já que para isso existe o deviantart.

Hoje decidi fazer uma opção diferente:
Participei de um passatempo/concurso de um projecto de design para merchandising dos Linkin Park, baseado na canção Castle of Glass. Uma componente do concurso é a votação online; como ficando caladinho não se chega a lado nenhum (complemento do ditado "Quem tem boca vai a Roma") decidi publicitar aqui a minha participação, esperando que a boa vontade de quem calhar vir visitar o blog os leve a visitar igualmente a página do projecto.



Visitem... e, se gostarem, deixem o vosso voto clicando no botãozito do lado direito (Facebook ou Twitter).

Deixo aqui o video da canção que serve de base ao concurso. Se estiverem com atenção, conseguirão identificar a imagem de onde surgiu a inspiração para o projecto ;)



Obrigada!

sábado, 4 de maio de 2013

Beloved




It's so quiet I can hear
My thoughts touching every second
That I spent waiting for you
Circumstances affords me
No second chance to tell you
How much I've missed you

My beloved do you know
When the warm wind comes again
Another year will start to pass
And please don't ask me why I'm here
Something deeper brought me
Than a need to remember

We were once young and blessed with wings
No heights could keep us from their reach
No sacred place we did not soar
Still, greater things burned within us
I don't regret the choices that I've made
I know you feel the same

My beloved do you know
How many times I stared at clouds
Thinking that I saw you there
These are feelings that do not pass so easily
I can't forget what we claimed as ours

Morningstar

I saw a star beneath the stairs glowing through the melting walls.
Who will be the first to begin their fall?
Or will we become one?

Am I the star beneath the stairs?
Am I a ghost upon the stage?
Am I your anything?





(I miss you, my morningstar)