quarta-feira, 30 de julho de 2008

Será desta ???

Parece que alguém acordou de repente e decidiu reforçar a oferta de CET na zona LVT. Quem terá sido a mente brilhante que o fez ? É que gostava, sinceramente, de lhe agradecer - por ter encontrado um CET que cobre áreas do meu interesse e em horário pós-laboral!

É que há coisas que não cabem na cabeça de ninguém - a menos que ao ser lançado um CET seja algo tipo "experiência" ou como aquelas acções de promoção que encontramos nos hipermercados "Já provou este novo iogurte ?", "Já conhece o nosso detergente ?" ... porque os CET são algo caído do céu para quem está empregado a tempo inteiro e sem condições de pagar propinas por vezes elevadíssimas numa licenciatura ou sem possibilidade de se comprometerem com um curso de 3 anos no mínimo. Criar um CET que só funciona em horário laboral é pedir a pessoas válidas, que querem prosseguir estudos sem deixar de trabalhar, que optem entre desistir do CET ou desistir de trabalhar durante uns tempos.

É que licenças sabáticas são muito bonitas no papel mas inacessíveis ao "povo comum". Se eu dissesse ao meu patrão "preciso de um ano de licença sabática para voltar a estudar" ele provavelmente convidava-me a assinar um acordo de rescisão de contrato de trabalho ... sem contar que iria ter que dormir no carro porque perderia a casa por falta de pagamento das prestações, não ?

Vivam os CET em horários diferenciados!

quarta-feira, 25 de junho de 2008

Parar para pensar

Uma música que tenho ouvido muito, ultimamente. Boa para acompanhar aqueles devaneios de "e se um dia ..." ou "e se em vez de ..." relembrando-nos das oportunidades que se perdem por estarmos concentrados em outras coisas quiçá menos importantes.





V1: Take time to realize,
That your warmth is
Crashing down on in.
Take time to realize,
That I am on your side
Didn't I, Didn't I tell you.

But I can't spell it out for you,
No it's never gonna be that simple
No I cant spell it out for you

C: If you just realize what I just realized,
Then we'd be perfect for each other
and will never find another
Just realized what I just realized
we'd never have to wonder
if we missed out on each other now.

V2: Take time to realize
Oh-oh I'm on your side
didn't I, didn't I tell you.
Take time to realize
This all can pass you by
Didn't I tell you

But I can't spell it out for you,
no it's never gonna be that simple
no I can't spell it out for you.

C: If you just realized
what I just realized
then we'd be perfect for each other
then we'd never find another
Just realized what I just realized
we'd never have to wonder
if we missed out on each other now.

V3: It's not always the same
no it's never the same
if you don't feel it too.
If you meet me half way
If you would meet me half way
It could be the same for you

C: If you just realize what I just realized
then we'd be perfect for each other
then we'd never find another
Just realize what I just realized
we'd never have to wonder

Just realize what I just realized
If you just realize what I just realized
OoOoOOo
missed out on each other now
missed out on each other now
Realize, realize
realize, realize

[ "Realize" - Colbie Caillat : Lyrics on http://www.lyricsmania.com/ ]

quinta-feira, 29 de maio de 2008

Amigos

Pela segunda vez num espaço de tempo muito curto, alguém que me é próximo perde um familiar. E se num dos casos consegui falar com a pessoa e estar ao seu lado, no segundo caso tal não foi possível. Vi-me limitada a enviar uma SMS para transmitir o meu carinho e apoio. Mas isso irritou-me, porque a amizade não cabe numa SMS. Não há espaço suficiente. E foi exactamente por causa disso que acabei por escrever um dos meus desabafos - que acabou por ser maior do que inicialmente tencionava.
Aqui fica.

----§----
Ai, amigo ...

Não dava.
Não havia maneira.
Por mais que eu quisesse, não havia forma de condensar em 160 caracteres tudo o que te queria dizer.
Não conseguia concentrar em 160 espacinhos o que me ia na cabeça e na alma.

Tive que me contentar em enviar meia dúzia de palavras abreviadas para te (vos) transmitir que quereria ter estado contigo (convosco) numa hora tão triste como aquela por que passaram. Ao condensar demais as ideias e as palavras – em 160 míseras casinhas – caí nas mais que repetidas mensagens que decerto recebeste nestes últimos dias. Mas não podia ficar completamente afastada, já que presencialmente não me podia manifestar.

Há um mail que circula dizendo que a parte do corpo mais forte que possuímos são os ombros. São eles que seguram a nossa cabeça, umas vezes direita e firme, outras vezes cabisbaixa – por tristeza, vergonha ou mal-estar, não interessa. Mas para além de nos segurarem direitos são também os ombros que têm a importante função de apoiar os Amigos nas horas boas e nas más.
Já emprestei os ombros a amigos e já pedi ombros emprestados, quer para partilhar algo de maravilhoso quer para dividir uma tristeza imensa. Pois eu quereria ter estado convosco para te emprestar o meu ombro. É que, digo-te já, é um ombro bem experiente – em horas positivas e negativas. Mas quisera pô-lo à tua disposição nesta hora. Para desabafar, para chorar, fosse o que fosse; até para esmurrar se te apetecesse caso fosses dominado por uma legítima ira face ao que aconteceu.

Mas não pude comparecer, não pude estar ao teu (vosso) lado. Não pude abraçar-te e dizer-te baixinho “não precisas de falar, chora à vontade se quiseres”. Não pude estar convosco numa hora em que todo o apoio ajuda para suportar uma grande dor. Tive que me contentar com 160 caracteres para, afinal, não conseguir dizer o que queria ... daí que agora escolhi escrever tudo antes que a memória – essa grande malandra - me atraiçoe e roube as palavras que quereria dizer-te.

160 espacinhos para te dizer o que me vai no coração ? Não chegam e nunca chegarão para ilustrar a verdadeira dimensão da Amizade e do Carinho.

Espero que este “pequeno” texto o consiga. É que daria imenso trabalho escrever isto tudo em blocos de 160 de cada vez, ainda para mais porque não conseguimos utilizar os dedos todos num telemóvel – ia ficar com uma valente cãimbra nos polegares ...

Espero também que quando este texto te chegar às mãos (ou à vista, melhor dizendo) te sintas um pouco melhor. Mas se não for o caso, os ombros cá continuam à tua disposição sempre que precisares.

Afinal, é para isso que servem os ombros dos Amigos, não é ?

sexta-feira, 23 de maio de 2008

quinta-feira, 8 de maio de 2008

Coisas de miúdos

Entre alguns blogs que tenho o hábito de ler de tempos a tempos consta o de Pedro Ribeiro, o Sr. "Manhãs da Rádio Comercial" por excelência (http://osdiasuteis.blogs.sapo.pt/). Pela primeira vez o tema deu-me vontade de comentar, além de ler. E inspirou-me a partilhar algo do meu dia-a-dia mais recente.

Ultimamente, quer o meu filho (pequenote mas com a mania de que é um homenzarrão) quer a mana (bem mais crescida) resolveram reviver uma velha tradição nossa: as leituras à hora de deitar. Cada um escolhe um livro da colecção e a mãe lê à vez. Não sei se foi porque se habituaram, por acharem piada às vozes com que leio ou por gostarem mesmo das histórias: quase invariavelmente escolhem livros da Rua Sésamo. Ok, uma ou outra vez, do Winnie the Pooh. Riem-se com o facto de, em todos os livros da Rua Sésamo, o livro que está a ser lido por alguém (professora, irmã ou monstrinho) é "A menina dos caracóis de ouros e os três ursos". Com as vozes do Gualter ou do Egas. Ou o sotaque da avó do Poupas. Riem-se também com o Winnie a rebolar ladeira abaixo fingindo que é uma grande abóbora bem redonda.

Mas acho que qualquer daqueles livros tem poderes mágicos. No fim da história já um sorriso se desenha sob um par de olhos sonolentos e conforme estes se fecham, entre dentes solta-se um balbuciado "boa noite, mãe ...".


Um fim calmo para um dia que começou sombrio, quando soube do falecimento de um amigo. Após doença grave que lhe roubou as forças de forma traiçoeira ao fim de um combate de meses, o marido de uma grande amiga está por fim livre do sofrimento que lhe marcou os últimos dias. Queria poder largar tudo para estar com ela nesta hora de dor, para lhe emprestar a parte mais forte do corpo que cada um de nós tem - os ombros, para amparar os amigos.
Cassie, sê forte ... um beijo grande.

quarta-feira, 2 de abril de 2008

Aprender

"Burro velho não aprende línguas".
Utilizada por muita gente, esta frase incentiva a cair em erro. Alguma vez um burro aprendeu línguas ? Ou quem é que é capaz de avaliar a idade do burro, já agora ? Mais ainda: quem decide o que é "velho" ou não ?

Este desabafo surge porque não me contento em ficar sentadita a cumprir o meu horário e sem tentar melhorar o que seja, inovar, optimizar. Como nunca cheguei a ir para a Faculdade e agora a vida não me permite andar a pensar em empatar 3 anos da minha vida (por maior que seja o retorno) pensei em Cursos de Especialização Tecnológica - uma formação mais avançada e específica em determinadas áreas, sem invalidar que o formando possa, mais tarde, prosseguir para o Ensino Superior.

Agora é que a porca torce o rabo: a oferta destes CET é escassa; na minha área profissional, então, quase inexistente. A pouca formação em CET que existe ligada à Contabilidade surge fora de Lisboa ... o ISCA de Aveiro tem CET, porque raio não haverá o ISCAL de ter também ?
Ou outra instituição de ensino reconhecida que não nos sugue vários meses de salário bruto para uma "Pós-Graduação" que, pelo facto de não termos um canudito anterior, apenas irá conferir "certificado de participação" ... como querem que os profissionais "de campo", os "operacionais" tenham formação actualizada se não têm onde a ir frequentar ?
É que, quer queiram quer não, uma boa fatia dos "operacionais" são pessoas que apenas concluíram o Ensino Secundário mas depois acumularam anos e anos de bagagem profissional que lhes permite discutir mano-a-mano com quem tem o dito canudo.

Muitas empresas, com estes novos incentivos, exigem licenciaturas para atender telefones e tratar do correio ... mas não lhes passa pela cabeça que a pessoa que aceitar ir para lá apenas o fará de forma temporária ? Que não andaram a queimar pestanas em Análise Financeira, Direito Comunitário ou Sociologia do Trabalho durante ANOS para depois ganhar meia dúzia de euros a atender telefones ? O que buscam estas empresas ? Incentivos fáceis dados com o intuito de empregar o maior número possível de recém licenciados ?

Agora a outra face da moeda ... se todas as empresas resolverem contratar recém licenciados para tudo e mais alguma coisa: 1) que acontecerá aos operacionais sem canudo ? 2) quem irá complementar a formação "onjob" desses recém licenciados cuja formação foi quase totalmente teórica ?
Respostas possíveis:
"Os operacionais podem voltar a estudar"; pois, mas com quê ? Tanto quanto sei, não podemos pagar propinas com ideias nem com cabelos brancos. E até porque há quem não tenha abundância de uns nem de outros.
"Os recém-licenciados podem aprender com outros licenciados que já trabalhem há mais tempo nas empresas"; ok, por exemplo quando o prazo da entrega da declaração do IVA estiver a apertar, ou se faz o trabalho rapidamente ou se dá formação. As duas coisas é que me parece difícil, porque duvido que hajam empresas com 3 ou 4 directores financeiros. Ainda para mais porque muitos destes ou nunca foram ou já há muito tempo não são "operacionais" e levam mais tempo a fazer algumas tarefas relativamente simples porque já se esqueceram como o fazer ...

Estou com um tom azedo ? Sim, é normal. Porque por cada vaga de emprego a que me candidato e sou rejeitada com base em "perfil inadequado" (uma máscara para "lamentamos mas se não és licenciada não tens hipótese") uma enorme fatia irá vagar novamente porque quem foi recrutado com o "perfil adequado" irá daqui a algum tempo mudar para outro emprego com melhores perspectivas. E as empresa empregadoras e/ou as empresas de recrutamento irão novamente delinear o "perfil adequado" assente no obrigatório canudo. Admiram-se que queira estudar mais um bocadinho ? Querer eu queria, garanto - mas onde ?

terça-feira, 1 de abril de 2008

Tempo

Escorre-nos por entre os dedos como areia da praia. Tem valor diferente para pessoas diferentes em situações diferentes ainda que a unidade de medida seja igual. 10 minutos de jogatina no computador não valem o mesmo que 10 minutos de castigo. 1 minuto vale de forma diferente consoante o acontecimento que se aguarda ... se antecipamos algo agradável, parece que a tarde demora a passar; se nos pesa o que iremos encontrar em casa, parece que está a passar demasiado depressa.

O Tempo não é apenas um tema para conversa de algibeira ou troca-letras com que se desafiam os miúdos. É algo de precioso que não volta depois de fugido, que não cresce depois de arrasado, que não nasce depois de gasto.
Só se acumula o que ainda não passou. Se o ponteiro já se foi, deixou de ser tempo, passou a ser uma memória.

Para terminar, a frase na parede do Studio 60 on the Sunset Strip (atribuída, creio eu, a Groucho Marx):
"Time flies like an arrow ... fruit flies like a banana"

Nota: tenho que guardar uma tarde para falar de memórias desenterradas e de um velho ditado. E já agora, de publicar fotos dos meus quadros ...

quarta-feira, 20 de junho de 2007

Mudanças no fim da Primavera

Pois. Costumam-se fazer limpezas de Primavera ... mas eu sou avessa a arrumações com data marcada. Aliás, sou avessa a imensas coisas com data marcada! Prendas, por exemplo ... beijos também ;o)

Fiz arrumações na minha vida. Retomei o desenho, deixei de fumar e voltei ao ginásio.
Os resultados do desenho estão acessíveis aqui:
http://regicat.deviantart.com
Os resultados do resto ... bem, ainda não estão à vista. Até agora não tinha uma banda sonora decente para me movimentar ao ritmo que EU quero em vez do que o staff do ginásio pensa ... pois esta semana mudou tudo!

Uma pequena amostra ... passadeira com inclinação 7.5 e velocidade 5.5, caminhar como se estivesse na rua com um sorriso ouvindo isto:
http://www.youtube.com/watch?v=u37wkvyy9nA
(não consigo ficar quieta quando ouço isto, acreditem !!!)

Depois, para malhar forte e feio ...
http://www.youtube.com/watch?v=ZjNJOiuBwcI
(venham os halteres !)

E para os alongamentos ...
http://www.youtube.com/watch?v=LdmWh1n8nXU
(não recomendado a menores ... a letra tem bolinha vermelha no canto!).

Daqui a um tempo logo se vê se resulta ou não ... o bikini o dirá!

quinta-feira, 5 de abril de 2007

Bifrost

Arco-Íris
celeste sinfonia de cor
sobre um fundo cinzento

Como um traço ...
curva que mão firme
riscou com lápis multicolores
Ponte para o céu
estrada ladeada de escudos
de heróis há muito mortos

E fina ...
como um fio de navalha
do qual cair
significa a morte

Quantos exércitos por ti marcharam
na sua última caminhada?
Para um campo de batalha
onde não há guerra
onde a luta, para eles, acabou

No céu cinzento de chuva.


(1987)

terça-feira, 26 de dezembro de 2006

Carta de uma Mulher ao Pai Natal

.
Este texto foi inicialmente publicado na Revista "Máxima" com o título "Carta de uma mulher dos Anos 90 ao Pai Natal". Mas o texto, em si, não tem que ser datado dessa década. Aplica-se hoje com a mesma força. Não sei por quem foi escrito, já que na velha fotocópia que tenho religiosamente guardada numa gaveta o nome da autora não aparece. A ela, quem quer que seja, obrigada por dizer o que muitas de nós quereriam exprimir. E se alguém souber o seu nome, que me informe para lhe dar o devido crédito aqui.


"Querido Pai Natal:
Este Natal gostaria de receber um presente diferente. Não é que eu não goste do novo modelo de micro-ondas que recebi o ano passado ou que não me dê jeito mais uma camisa de dormir de flanela, mas este ano gostaria de concretizar uma fantasia.
Quero que me deixes no sapatinho um ... homem. Não me leves a mal este pedido, eu até gosto do que tenho cá em casa, mas tenho cada vez mais dificuldade em reconhecer nele aquele ser perfeito e indómito com quem me casei há alguns anos atrás.
Por isso, se não fosse muito incómodo, gostaria que considerasses a hipótese de criar algo de muito especial para mim. E desta vez quero a perfeição.
Estou farta de ser vítima da publicidade enganosa, onde os maridos têm sempre uma cabeleira farta, um sorriso estonteante de brancura, corpos atléticos, nunca se aborrecem e estão sempre prontos a cobrir-nos de ternura logo pela manhã, em cenários idílicos que nada têm a ver com as nossas casas. Não me importo que recorras a modelos já conhecidos e que me tragas uma combinação daquilo que me parece ser a aposta certa.

Fisicamente, ficaria muito contente se arranjasses alguém que tivesse o porte atlético do John Kennedy e a allure aristocrática do Pierce Brosnan. Ou então, alguém que consiga personificar a força do Mel Gibson e aquele jeito a pedir carinho do George Clooney. Se nada disto estiver disponível, não me importo de receber um modelo um pouco mais usado, um cinquentão vulnerável como o Harrison Ford ou um clássico, no género imperscrutável, como o Jeremy Irons. Claro que teria de vestir smoking sem ficar com ar de empregado de mesa, ousar de vez em quando um look mais casual ou mesmo um chic negligé, claro que sempre com um ar óptimo. Para o dia-a-dia, o seu corpo teria de se movimentar com agilidade dentro de um guarda-roupa urbano e, claro, nunca em circunstância alguma acusar algum traço que o identificasse com a legião de funcionários anónimos que às cinco horas abandonam os seus cinzentos escritórios. Neste aspecto da questão, convinha que lhe fosse incorporado algum material genético do Paul Newman. Porquê? Francamente, querido Pai Natal, eu não quero desmerecer nos teus cabelos brancos, mas os dele têm um quê muito, mas mesmo muito, especial.
Em matéria de formato, estamos conversados. Agora, vamos ao conteúdo. Também aqui, tenho sido presa fácil da televisão e do cinema. Quero tudo o que ali nos prometem. Quero o olhar de desejo intenso e desvairadamente sofrido do Ralph Fiennes sobre mim (antes de ter ficado todo chamuscado no "Paciente Inglês") quando me movimento em minha casa, quero ser levada ao colo como a Michelle Pfeiffer pelo George Clooney num "Dia em Grande" sempre que me apetecer. Quero momentos de carinho e paixão. Quero os clichés todos do amor romântico. Pétalas de rosa na cama, velas a banheira, conversas longas à lareira. Eu sei que vais franzir o sobrolho mas não me importo que duvides do meu gosto: eu quero mesmo que alguém ponha música para mim no meio da savana. Se a Meryl Streep teve direito a isso porque não hás-de mandar a mim um Robert Redford que faça o mesmo? Até troco a savana pela selva do trânsito mas quero um homem que me surpreenda. Quero champanhe para comemorar coisa nenhuma, apenas o prazer de se estar junto. Também me dava jeito uns fins-de-semana não programados, feitos à medida do impulso, da vontade da fuga, para um lugar luxuoso, incomportavelmente caro e bonito. Local que ele pagará sem nunca mencionar o preço fazendo todas as tonteiras que me apetecer. Passear na praia mesmo que esteja a chover, correr até perder o fôlego num bosque de árvores vermelhas, levar-me aos sítios todos que me apetece, sem nunca me dizer, que é longe, que está farto de guiar ou que já não tem gasolina. E nunca, mas nunca, mas mesmo nunca, pode dizer que não quer dançar. O meu presente de Natal tem de saber todos os truques da pista de dança, movimentar-se com desenvoltura num ritmo techno e esmagar-me de orgulho quando me arrebata num tango. E tem de entender todas as infinitas nuances de um slow, com todos os códigos físicos do toque corpo a corpo. Mais: tem de ser capaz de dançar comigo no meio da rua se as circunstâncias se proporcionarem.

Convém também que, à semelhança dos heróis cinéfilos dos anos 70, esteja disposto a falar horas e horas sobre as variantes dos sentimentos que nos unem, que não se faça amnésico quando se refere a sua vida amorosa a.N. (anterior a Nós) e que seja capaz de gritar, soletrar, recitar, declamar, balbuciar, cantar, dizer sempre mas sempre o verbo amar e já agora outros associados que obviamente variam de caso para caso. E sobretudo, que mesmo à distância me fizesse sentir sua. Digamos que a perfeição, nesta matéria, seria sempre qualquer coisa entre o Al Pacino na primeira parte do "Padrinho III" e o Clark Gable em "E tudo o vento levou". Que como o Bogart em "Casablanca" seja capaz de apanhar uma bebedeira por minha causa e não porque ficou a falar com os amigos.
Importante, mas mesmo muito importante, querido Pai Natal, é tudo o que se refere à capacidade do homem que me vais mandar de viver longe da sua própria mãe. Querido Pai Natal, eu quero um homem arrumado como o Poirot mas, claro, sem aqueles traços obsessivos. Que acorde ao alvorecer como qualquer cowboy solitário do velho Oeste, ou seja, sem nenhuma mulher para lhe lembrar que o Sol já vai alto, para lhe dizer onde estão os sapatos, a camisa, o casaco ... Enfim, que consiga per si, sem gritar com ninguém, sem culpar nenhum dos seres vivos ou inanimados com que se cruze na Longa Marcha entre a cama e o duche de que ninguém o acordou e que, se o acordaram, acordaram-no mal. Em seguida, convinha um homem que mesmo que não soubesse cuidar das crianças aprendesse, género Dustin Hoffman no "Kramer contra Kramer", mas que ganhando estas novas competências não perdesse as anteriores, facilmente observáveis em qualquer série americana que retrate a vida dos subúrbios, competências essas que convém discriminar, pois, querido Pai Natal, se é verdade que os homens ainda não são o que nós queremos, também já não são o que eram. Assim sendo, quero um homem que, à boa velha maneira, tipo Clint Eastwood, não precise da minha ajuda para nada, ou seja, que trate sozinho dos impostos, dos carros, pague sozinho as contas e me diga "Vê lá, se não quiseres trabalhar, não trabalhes."

Depois, ainda faltam os estados de alma. Este ser perfeito que me vais mandar, querido Pai Natal, vai ter que ter o entendimento absoluto da minha vida interior. Já vem com um dispositivo que inibe a impaciência e a capacidade de falar alto. É um ser solidário sempre pronto a compreender as minhas lágrimas quando faço uma malha na meia ou o desalento que se sente ao olhar para a cozinha após um almoço familiar. Jamais mostrará desagrado por não ter as camisas todas passadas a ferro e achará mesquinho zangar-se porque bati de novo com o carro. As vicissitudes domésticas provocam-lhe o riso e nunca deixará que os problemas profissionais lhe alterem o humor e o comportamento. A sua prioridade serei sempre Eu. Nunca vai achar que sou ridícula por achar que não sou tão bonita como a Kim Basinger e está pronto a perder duas horas para enumerar as minhas qualidades sempre que me sinta insegura. Quando for caso disso, anulará qualquer compromisso para correr para casa porque me sinto deprimida.
Saberá ler nos meus olhos a dor, a mágoa e a tristeza. Terá uns ombros tão fortes, que só o facto de me abraçar afastará todas as adversidades. Terá como tarefa primordial abraçar-me todos os dias e beijar-me apaixonadamente em locais públicos a propósito de coisa nenhuma.
Como nos filmes."

segunda-feira, 18 de dezembro de 2006

Navegante

Amigo
para ti construirei
não uma jangada
não uma caravela
mas um esquife
mera casca de noz
onde sozinho
possas aventurar-te
nos mares calmos.

Dar-te-ei agasalho
para que possas
navegar de noite
deitar-te ao relento
observar as estrelas
cadentes, mirabolantes
e sonhar.

E se o temporal surgir
o vôo do falcão te guiará
por entre escolhos
e ventos contrários
a bom porto.

Na praia,
pés nus na areia milenar
te reencontrarás.
15/06/2004

Manifesto: a um Amigo

Para o Thanabur

Que as ondas do mar te refresquem a alma
e levem embora as sombras que te inquietam
não te deixando ver o nascer do sol
que se avizinha, sereno e indiferente
aos problemas e sofrimentos
das pobres criaturas transitórias
que somos.

Tem fé em que o sol nascerá, imutável
ainda que toldado por negras nuvens.
Tarde ou cedo se dissiparão
deixando-te olhar de novo
a imensidão do azul do céu
reflectido na imensidão do mar
(esse mar que tanto te diz).

Vem, vamos ver as gaivotas
em perene volteio
que aguardam o fim da tormenta
para regressar ao seu natural elemento
... esse mar que tanto amas.

Não receies a tempestade
pois sabes (eu sei que sabes)
que de quando em vez
uma revolução é necessária
para que tudo volte a assentar
ainda que por vezes da mesma maneira.

O mar é eterna mudança.
Aceita as mudanças
como aceitas o mar.
Uma onda de cada vez.
17/09/2004

Filhos de Athena

Numa altura em que escrevia muito mais, participava activamente num Fórum - os Filhos de Athena, onde os livros eram discutidos entre os membros.
Tínhamos igualmente um espacinho para partilhar as nossas criações.

Extraí daí um pequeno poema de uma "colega" do qual gostei bastante - a ponto de ter gerado espontaneamente uma resposta minha.

"O sorriso continua na boca dos outros"

Quero comprar um sorriso
não haverá nenhum à venda?
Vejo tantas bocas sorridentes
quando caminho na rua.
Lábios bem rasgados
numa boca com dentes branquinhos.
Quando tento sorrir
cai-me uma lágrima no rosto
e a boca permanece friamente fechada.
O sorriso continua na boca dos outros.
Blueiela-22/11/04

E a resposta ...

Desculpa mas não tenho
sorrisos para vender.
Se estiveres interessada,
posso encomendar
um arco-íris, um colibri
um pedaço de algodão-doce
um salpico de maresia
um cheiro a terra molhada
um raio de sol ao amanhecer.
Pedirei a uma borboleta
que te leve a encomenda
e ta deixe sobre o nariz.
Ainda que não mostres os dentes
acredito que vás sorrir ...
17/11/2005

sexta-feira, 15 de dezembro de 2006

Lembrança longínqua

Lembro-me de ter lido isto há muitos anos, pouco tempo depois do livro ter sido editado.
Reencontrei-o graças ao meu amigo ... o Google.
Estas frases dela originaram outras linhas - minhas.
Vou ver se um dia as procuro para as partilhar aqui.

"Alguém pode me dizer
se estava prevista na palma da minha mão
esta paixão inesperada
se já estava escrita e demarcada
na linha da minha vida
se fazia já parte da estrada
e tinha que ser vivida
ou foi um desgoverno repentino
que surpreendeu os deuses, todos
os que desenham nosso destino
ou foi um desatino, uma loucura
uma imprevisível subversão
que só a partir de agora eu trago marcada
na palma da minha mão."
(Bruna Lombardi)

Os sonhos também morrem

Será talvez pedir demasiado
que o sonho que albergo
no âmago do coração
se liberte, se concretize
...
Tenho medo, receio, sei lá
do incumprimento do sonho
de o ver perder-se nas brumas
de uma ilha longínqua de fantasia
onde os “Talvez...” brincam
às escondidas com os “E se...”

Sonho que persigo,
sonho que acalento,
sonho que me tortura,
sonho que desperta
em cada adormecer
solitariamente acompanhado.

Um sonho que se arrisca
a ficar perdido numa terra do nunca
local onde, entre brincadeiras,
abandonados por fim
por quem os sonhou
sentiu
imaginou ...
há sonhos que morrem sozinhos
na fria aurora da realidade.

segunda-feira, 11 de dezembro de 2006

Serendipity

Serendipity: o acto de fazer uma descoberta importante por acidente; encontrar algo quando se procura outra coisa - Horace Walpole

Esta definição remete-me para outra frase:
"Life is what happens while your making other plans" - John Lennon

Que parte das nossas vidas está ou não predestinada? Existem na realidade sinais aos quais deveríamos estar atentos, sob pena de perder grandes oportunidades nas nossas vidas? E, se sim, quem os envia? Ou o quê?
Tantas questões levantadas por um filme inesperado ... sim, inesperado porque de vez em quando a RTP brinda-nos com pérolas destas a horas incertas. Inesperado porque, apesar de se inserir na "classificação" de comédia romântica teve o condão de me fazer pensar na "Big Picture" - se existe ou não e qual o meu papel nela.

O que fazer quando reconhecemos os sinais mas nos encontramos presos a situações confortáveis das quais nos custa livrar - ou cujo desmembramento sabemos que irá prejudicar terceiros? Quantos de nós terão a coragem de questionar a validade das escolhas já feitas e deitar tudo para trás das costas para embarcar numa aventura que acreditam encerre o seu futuro? E quantos ficarão a lamentar-se para o resto das suas vidas com a frase "ah, se eu tivesse optado de forma diferente ..."?
Tenho medo desses sinais, se existem. Tenho medo de os não saber ler - ou, sabendo interpretá-los, de os deixar fugir como areia por entre os dedos.

Existirão segundas (ou terceiras) oportunidades para se ser feliz ?

quarta-feira, 29 de novembro de 2006

Músicas no dia-a-dia

Há músicas que em determinados momentos das nossas vidas têm uma especial ressonância. “Batem” com força nesses instantes como se quem as compôs tivesse passado (e talvez tenha) pelo mesmo que estamos a passar nessa altura.

“Driving with the brakes on” dos Del Amitri ... o assunto de fundo não é o mesmo, nem poderia sê-lo. Mas é assim que me tenho sentido ultimamente. Como se conduzisse um carro permanentemente travado ... como se tentasse nadar com botas pesadas nos pés.
Sinto-me afundar num oceano de marasmo, do deixa-andar rotineiro, das coisas nunca resolvidas que se camuflam com um remendo como se tapa uma borbulha incipiente com maquilhagem. E as botas pesadas não me deixam vir à tona. A água gélida rodeia-me e o frio entranha-se no meu corpo, cerrando-se à volta do meu coração. Do meu Eu.

Outra música que tem sido minha companheira permanente nos últimos serões é “Letting the Cables Sleep” dos Bush. Noites frias em que me sinto deslocada, como se não estivesse no lugar certo ... haverá algum lugar certo para mim?

“Whatever you say it’s all right
Whatever you do it’s all good
Whatever you say it’s all right
Silence is not the way
We need to talk about it “

Sinto a premência do querer que algo aconteça … qualquer coisa que destrave finalmente o carro e me faça seguir em frente. O que quer que seja, que quebre o muro de silêncio que impede a resolução das situações. Mas o silêncio estende-se como um manto de nevoeiro, mascarando tudo o que há de errado. Como se pelo facto de não se falar sobre algum assunto fizesse com que ele desaparecesse.
Nada mais falso, não é?
Então tentem nadar contra a maré com botas calçadas ...

sexta-feira, 10 de novembro de 2006

Possession

"I cannot let you burn me up, nor can I resist you
No mere human can stand in a fire and not be consumed" - A.S. Byatt

Com estas palavras recupero o impacto que o filme Possession teve em mim.
Uma história de encontros e desencontros, romances improváveis - e exactamente por isso cativantes - entre a Inglaterra vitoriana e o século XXI.
Dei por mim mesmerizada a olhar para o écran, desejando estar ali, naquela costa batida pelas ondas do Oceano, procurar as cartas perdidas de Randolph Ash e Christabel LaMotte.
Imagens que se sucediam, envolventes ... o computador esquecido atrás de mim, enquanto rodeava o corpo com os meus próprios braços, tentando ignorar a fria humidade de uma noite de Novembro.
Há muito tempo que um filme não me arrastava assim na sua magia.
A ver ...
http://www.possession-movie.com/main.html

sexta-feira, 16 de junho de 2006

Alertas

Aprendi a ler e-mails com a necessária pitada de sal. Uma boa parte do que nos reenviam são hoax, já se sabe.
Mas um alerta no Blog do Nuno Markl (http://www.havidaemmarkl.com/) deixou-me a pulga atrás da orelha ... sabemos como os lobbies americanos são interventivos, e como infelizmente os europeus tendem a seguir-lhes as pisadas.
Fui cuscar o site que era mencionado ... http://savetheinternet.com
Ameaça real? Não sei, mas ... é melhor estar de pé atrás e ficar de olho nas notícias sobre isto.

terça-feira, 10 de maio de 2005

Insónia

É difícil dormir.
Os minutos passam, alongam-se em horas, e o sono não chega.

Sinto-te respirar sobre o meu ombro, e pergunto-me com quem estarás a sonhar.
Pergunto-me se me abraças a mim ou a alguém que te povoe os sonhos.
Vejo-te sorrir, falar por vezes, e sei que não é comigo que falas enquanto sonhas. No teu rosto há por vezes um ar tão feliz que desejava poder ver o teu sonho. Ajudar-te a concretizá-lo - ainda que para isso tivesse que me afastar.
Porque não é justo sofrermos ambos se não é a mim que queres. Não é justo tolher o caminho de outrem se esse caminho deixou de ser o mesmo que o nosso.

Não sei se perdi a capacidade de sonhar. Se o faço, não me lembro de nada, de nenhuma das imagens que me povoa o inconsciente. Talvez porque seja demasiado parecido com a realidade?

Sei que por vezes acordo inquieta.
Sei que por vezes acordo com o rosto molhado de lágrimas.
Sei que por vezes acordo com uma sensação de solidão tremenda.

A culpa não é tua. São estes pensamentos que fogem antes que eu os capture, e que já não sei quais são. Talvez seja apenas um medo tremendo de te perder. De pensar em refazer o meu caminho sem ti, tu que me povoas os dias e por cuja presença anseio durante as horas em que não te vejo. Talvez o meu subconsciente saiba coisas que não me conta.

Acordo de noite e não consigo voltar a dormir.
Mas aninho-me nos teus braços desejando que esteja tudo bem e que os fantasmas da minha noite se afastem enquanto espero que a manhã chegue.
Contigo.