segunda-feira, 19 de junho de 2017

Espaço

Faltas-me aqui,
no intervalo entre os braços estendidos...
rente ao peito, onde o coração
pulsa, violentamente,
o teu nome.

quinta-feira, 1 de junho de 2017

[Palavras de outros] - Il Bacio

Il bacio appena sognato
in una notte di tradimenti,
dove tutti consumano amplessi
che non hanno profumo,
il tuo bacio febbricitante,
il candore delle tue labbra,
somiglia alla mia porta
che non riesco ad aprire.
Il bacio è come una vela,
fa fuggire lontano gli amanti,
un amore che non ti gela
che ti dà mille duemila istanti.
Ho cercato di ricordare
che potevi tornare indietro,
ma ahimè il tuo bacio
è diventato simile a un vetro.
Io come un animale
mi rifugio nel bosco
per non lasciare ovunque
il mio candido pelo.
Il pelo della mia anima
è così bianco e così delicato
che persino un coniglio ne trema.
Tu mi domandi quanti amanti ho avuto
e come mi hanno scoperto.
Io ti dico che ognuno scopre la luce
e ognuno sente la sua paura,
ma la mia parte più pura è stata il bacio.
Io tornerei sui monti d’Abruzzo,
dove non sono mai stata.
Ma se mi domandano
dove traggono origine i miei versi,
io rispondo:
mi basta un’immersione nell’anima
e vedo l’universo.
Tutti mi guardano con occhi spietati,
non conoscono i nomi delle mie scritte sui muri
e non sanno che sono firme degli angeli
per celebrare le lacrime che ho versato per te.

(Alda Merini)

Pálido ponto azul

Tenho um terraço, daqueles no topo do prédio e tudo, mas a vista lá de cima não é nada de especial.
Às vezes vejo aviões militares a passar. Mas só às vezes, porque habitualmente voam bem lá no alto e só lhes ouvimos o ruído do motor.

Em dez anos, devo poder contar pelos dedos a quantidade de tardes sem vento naquele local e que coincidiram com fins de semana ou dias de férias; que é o mesmo que dizer, a quantidade de vezes em que pude acender o grelhador a carvão. Só o fiz 3 ou 4 vezes, afinal. Isso diz muito sobre o vento, mas nada sobre outros factores.

A verdade é que, de há alguns anos a esta parte deixei, praticamente, de ir ao terraço.
Durante o dia a vista não é nada de especial, como disse. E está vento, mesmo quando o céu está limpo e azul. Seria diferente se tivesse vista para o mar. Aí, nem vento nem chuva me arredariam do sítio de onde os meus olhos poderiam procurar paz.


À noite é diferente.
Nos dias quentes, depois de um horas de sol a bater nos mosaicos do chão, o vento parece pouco mais do que uma aragem. Ou então é mesmo pouco mais do que uma aragem, e até sabe bem.


O terraço tem um parapeito sólido, uma barreira eficaz à poluição luminosa oriunda da rua lá em baixo - mas só se nos sentarmos no chão, sentindo o mosaico ainda a irradiar o calor acumulado durante o dia. O terraço torna-se então um óptimo posto de observação do céu nocturno.
E é exactamente por isso que agora é raro ir para lá - a menos que estejamos em tempo de Aquáridas, Perseidas ou Oriónidas.
Porque perder os olhos na imensidão do céu, nas incontáveis estrelas acima de mim, fazem-me sentir o peso da minha pequenez e insignificância.
Eu, com todos os meus sonhos, desejos e medos, não passo de um micróbio entre sete mil milhões de micróbios correndo, vivendo e morrendo num pequeno e pálido ponto azul no quintal de uma galáxia entre milhões de galáxias.

Olhar para o céu, à noite no terraço, é olhar para o infinito.
E isso faz-me sentir infinitamente só.


terça-feira, 30 de maio de 2017

Tempestades

"Quem foi que provocou vontades
e atiçou as tempestades 
e amarrou o barco ao cais? 

Quem foi que matou o desejo
e arrancou o lábio ao beijo 
e amainou os vendavais?" 



sexta-feira, 26 de maio de 2017

Nós

Imaginas o que me apetecia agora?
Estava capaz de largar tudo, meter-me no carro, fazer uma rápida paragem em casa para buscar algumas coisas (mais uma paragem para te apanhar, se quisesses) e finalmente rumar a um pinhal - no Magoito, ou São Julião, por exemplo.
E nem me iria preocupar com lagartas.


Abriria então a sacola trazida de casa: garrafas de água, tupperwares a escorrer condensação, um top de desporto, livros, toalha de praia, calções, chinelos e um embrulho rústico de aspecto duro e pesado. Ao desenrolar o embrulho, uma lona rectangular, pesada e colorida, com os lados mais estreitos presos em barrote de madeira perfurados e amarrados com corda de sisal grossa.

Depois, pegar numa extremidade da lona, desenrolar as cordas e amarrá-las à volta de um pinheiro, com voltas reforçadas sobre voltas e nós fortes. E fazer o mesmo à outra ponta, tudo bem preso e amarrado com nós de marinheiro.

Finalmente, trocar a roupa de adulta de meia-idade (uma senhora!? supostamente) civilizada pelas de uma gaiata despreocupada e semi-selvagem como fui há tantos anos. As calças compridas pelos calções de ganga meio esfarrapados, a blusa sóbria pelo top colorido, os sapatos elegantes mas confortáveis pelos chinelos ainda mais confortáveis.

Espreguiçar-me, sentir o cheiro do pinhal misturado com o do mar, abrir bem os braços para abarcar tudo o que me rodeia (tudo incluindo tu, se lá estivesses) e respirar bem fundo.

Finalmente, com uma toalha de praia dobrada a fazer de travesseiro, um livro, mais um tupperware cheio de morangos e uvas, estender-me na cama de lona e des-con-tra-ir balouçando levemente na brisa.

Se tivesses decidido vir seria diferente, mas não muito. A lona teria de ser amarrada com mais força, nós mais fortes para nos suportar a nós, e é provável que fossem necessários mais víveres. Mas, em vez de fazer de uma toalha o meu travesseiro, o meu ninho seria o teu ombro e balouçaria embalada nos teus braços.

Nós, juntos, e paz para simplesmente estar.
Nada mais seria necessário.

quarta-feira, 24 de maio de 2017

Segredos

Hoje em dia, tudo é digital; até os segredos.

É por isso que guardo na agenda uma imagem do teu sorriso que, quando sei que ninguém me vê, observo demoradamente
hoje, o nariz
amanhã, os olhos, as sobrancelhas. pestanas.

focando, ampliando, fixando cada sinal ou poro até conhecer os teus detalhes.

Mas o ponto ao qual regresso uma e outra e outra vez são os teus lábios.
Como maduros e suculentos morangos hipnotizam-me, fazendo crescer em mim a vontade inconfessável, o desejo inadmissível de tos morder. Estendo os dedos e...

Sou uma menina bem comportada. Suspirando, guardo o desejo e pressiono a tecla do retorno.
O ecrã escurece, tenho a boca seca. Há coisas que devem ser mantidas em segredo.

À noite, ao apagar a luz, humedeço os lábios e sorrio.
Mal a escuridão se instale a minha mente encher-se-á de bites e bytes.
Em segredo.

quinta-feira, 18 de maio de 2017

Unexpected

Vou contar-te um segredo...
Sabes? Gosto de surpresas.
Mas, calma! Só gosto das que me fazem sorrir, ou rir como tola no meio da rua.
Não gosto das outras, as que me fazem ter vontade de gritar ou fugir para bem longe.

Gosto das surpresas que transformam o coração num pássaro pequeno, esvoaçante e que bate as asas na gaiola do peito como se quisesse sair.

Gosto das surpresas que me agigantam o coração e me enchem o estômago de borboletas, mesmo que às vezes me deixem lágrimas nos olhos, as bandidas.

Gosto de sair à rua e encontrar à minha espera quem me arranque sorrisos, e me cale as perguntas com um beijo, e me faça achar que o sol brilha radioso no céu azul, mesmo sob a chuva mais intensa.

Gosto de ser surpreendida por quem me sorria com os olhos e não precise de dizer nada.
Que me abrace, apenas, com força; e me faça sentir em casa.

Diz-me, quando é que me fazes uma surpresa?