quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

O sentido das palavras


'Writing is learning to say nothing, more cleverly each day' – William Allingham

Nem sempre o que escrevo tem sentido.
Às vezes não tem, mas é acidental.
Ás vezes não tem, e é propositado.

Muitas vezes as palavras têm um sentido mas não um propósito. Servem para exprimir mas não necessariamente para comunicar. E muitas são as vezes que tenho escrito dessa forma, porque há coisas que não se podem gritar aos ventos, e outras que até em segredo podem ser problemáticas.


«Mas... se não é para comunicar, porque escreves?»

Escrevo porque tenho de escrever, de expurgar, de libertar o que me preenche ao ponto de sufocar. Traduzi-lo em palavras é a forma mais simples de resolver a situação, porque permite remover o peso, o sufoco, e cristalizar o momento de forma a que, se quisermos, possamos revisitá-lo mais tarde, já munidos de outra perspectiva e quiçá outras ferramentas.
Mesmo quando pareço estar a escrever para alguém, na realidade escrevo para mim mesma, porque sinto que tenho de o fazer. Quando o que nos preenche, nos confunde, nos alegra ou despedaça está relacionado com outra pessoa, torna-se mais fácil escrever dirigindo-lhe as palavras. Sentimos que "dissemos o que tínhamos de dizer", mesmo que o "receptor" não esteja sequer ciente do facto de que aquilo que escrevemos lhe era supostamente destinado.


Mas há alturas em que as palavras são medidas e calculadas, em que queremos que tenham o peso e contornos certos, porque queremos dizer o suficiente mas não demasiado. Essas palavras podem ser perigosas. Um adjectivo a mais, um tempo verbal trocado, e expomos o que não queríamos ver divulgado. E num faux-pas como esse, quando a verdade fica exposta na máxima força da sua nudez, resta-nos apenas lançar mão ao manto diáfano da fantasia e... fingir que é a fingir.

Às tantas, tantas são as letras e as voltas do fingidor, que todos acreditam que a dor, a verdadeira, é fingida. E eu rio-me, vestindo a capa do fingidor: fingindo escrever sobre nada quando quero dizer tudo.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

O outro lado do espelho

"Só sabemos, seguramente, de uma amizade ou de um amor, o que temos pelos outros. De que os outros nos amem nunca poderemos estar certos. E é por isso, talvez, que a grande amizade e o grande amor são aqueles que dão sem pedir, que fazem e não esperam ser feitos; que são sempre voz activa, não passiva"

- Agostinho da Silva, Sete Cartas a um Jovem Filósofo.

Sei-me.
Sei o que o coração me diz e o que me pede.
Sei o desejo que me preenche e o sonho que aconchego.
Sei a vontade e o domínio, a tentativa e o controlo.


Sei o que é abdicar da esperança.

Nada pude pedir e nada pedi.
Dei, apenas.
Dei-me.
E dei-me, incansavelmente.
Em sonhos e nas fantasias que teci, que desenhei, que criei com palavras não ditas na minha imaginação.


Mas fiquei-me, mãos cheias em oferenda sem poder entregar o que tinha para dar.

Há muito tempo que vivo vendo a vida real como através de um vidro, a vida onde nada sou e nada do que eu digo importa.
Escolhi o outro lado - o outro lado do espelho, o lado da fantasia, onde grito ao vento o que sinto, onde o sonho é vivido e alguém me dá as boas-vindas de encontro ao peito num abraço demorado.

E espero, mesmo sem esperança, que um dia haja quem tenha a vontade e a coragem de me trazer de volta ao lado de cá.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

All I Want



I don't want a lot for Christmas
There is just one thing I need
And I don't care about the presents
Underneath the Christmas tree

I don't need to hang my stocking
There upon the fireplace
Santa Claus won't make me happy
With a toy on Christmas Day

I just want you for my own
More than you could ever know
Make my wish come true
All I want for Christmas is you

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

Luar

Haverá alguém que não goste da lua cheia?
De a ver, redonda, prateada e brilhante no céu?

Nunca o escondi: gosto da Lua e do luar, e especialmente de deixar a mente vaguear quando os meus olhos se perdem a contemplar a lua, ou aquilo que ela ilumina.
É como se já não tivesse os pés na terra, se estivesse naquele momento a voar na direcção desse outro planeta, tão fortemente atraído pela Terra mas sem poder aproximar-se - pois, se tal acontecesse, seria uma catástrofe.

A páginas tantas, dou por mim a comparar-me à Lua: grande, redonda e impossibilitada de se aproximar de quem quer que seja que a atrai. E, porque a atracção é tão grande mas existem forças que a impedem de se deixar levar pela gravidade, a pobre está a desfazer-se.
Sim, é verdade. Vão lá ler e depois voltem.

A Lua está a desfazer-se; a atracção focada na Terra é o que a mantém em movimento, para nossa maravilha, mas ao mesmo tempo é também o que a destrói.

Não brilho como ela.
Não devolvo com esplendor a luz que incide sobre mim.
Não lanço um lençol cor de prata sobre as águas do oceano.
Não danço de forma certeira mas vertiginosa um bailado à volta daquele a quem estou presa
Não me ergo lentamente sobre o horizonte, densa, cor de açafrão, pronta a inspirar poetas e cantores.
Não arrasto comigo as marés à medida que me movo à volta do foco da minha atenção.

Não sou nada disto.
Na realidade, não sou nada, não valho nada.
Não arrasto marés se me mover - a menos que caia numa banheira cheia e acabe causando uma inundação no andar de baixo.
Não causo admiração pelo meu mistério.
Não inspiro ninguém, e ninguém se enamorará do meu brilho.
Ninguém se emocionará ao ver-me dançar.
Quando me aproximo de alguém, por muito que me sinta ligada por cordas inefáveis, invisíveis, essa pessoa não se ilumina. Incomodo-a - ou, na melhor das hipóteses, nem dá por mim.
Sei que, se fizesse o que o coração tantas vezes pediu, se desvendasse de uma vez a verdade, seria o caos, a confusão.

E então aprendi a calar o coração com o punho.
Apagando-me um pouco.
Desfazendo-me um pouco.

Esboroam-se os dias até um dia me quebrar por completo; a cada dia o coração se racha mais e as lágrimas do mundo vão-me enchendo. Um dia os meus olhos reflectirão o luar - pois neles estará o oceano.


Mas ninguém mergulhará neste oceano, banhando-se de luar prateado.

sábado, 12 de dezembro de 2015

Navios

Há pessoas que ao cruzar-se evocam dois navios em alto mar: cargueiros que passam um pelo outro com calma, com tempo para se medirem, se mirarem e enamorarem antes de se afastar, ambos portadores da recordação indelével de momentos que carregarão sempre consigo.

E há aqueles para quem não existe nem nunca existirá um "nós", que até quando ocupam vizinhanças do mesmo espaço é de forma incidental, sem nada em comum, sem troca, sem partilha. Navios atracados em cais diferentes do mesmo longo ancoradouro, à vista um do outro mas a um mundo de distância.

Como hoje... poucos metros que pareciam um oceano inteiro.

Tu, a escuna, o iate, o catamarã de uma beleza esguia que se impõe, navegando a velocidade de cruzeiro e maravilhando os olhos do mundo.
Eu, a barcaça, o arrastão, o rebocador que puxa lenta e discretamente a sua carga, singrando invisivelmente pelas sombras à vista de todos.


Dois barcos, o mesmo porto. Um na marina de luxo, o outro na doca pesqueira. Qualquer cruzamento à boca da barra não é mais do que o momento fugaz em que passamos um pelo outro sem que me vejas, e rapidamente te distancias sem olhar para trás, possivelmente sem te dares sequer conta de que eu estou ali, tão perto que quase poderia tocar-te mas reduzida a ver-te afastar, até não seres mais do que uma vela no horizonte, um ponto, uma miragem. Só eu guardo a recordação de te ver passar.

Hoje. Algures na noite partiste sem um olhar, sem um adeus, deixando apenas o espaço vazio onde já não te encontrei. Como sempre sem me ver, partiste, veloz. E eu fiquei a olhar o local onde já não estavas, guardando tristemente a recordação da tua presença longínqua.

Noutro dia, no cais de sempre, partirás como sempre fazes; mesmo quando te despedes, vais-te rapidamente e sem olhar. Sem nunca me ver. E eu ficarei para trás como sempre faço, com o espaço vazio e a recordação.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

O som do mar

Há gostos partilhados que, por vezes, dão origem a experiências extraordinárias.

Foi esse o caso, hoje. Uma surpresa auditiva que me deixou um sorriso nos lábios, como quase sempre que ouço esta canção.

E, como quase sempre que a ouço, cerrei os olhos por instantes, e imaginei-me numa praia sobrevoada por gaivotas, com os pés descalços junto à rebentação - e no coração um desejo:

Abrir a janela e voar.


Obrigada, G.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

Sem mais

É que é mesmo isto... (tanto, tanto!)



há um passado um presente
gravado na mente
cismado na dor

um arrepio disfarçado
um olhar-te de lado
e um medo do amor

a palavra que se nega
o recuo a entrega
a balançar em mim

uma recta que se curva
um olhar que se turva
e um medo do fim

(como é que eu hei-de apagar esta paixão?)
(como é que eu hei-de apagar esta paixão?)

um verso que se conjuga
um verbo e a fuga
por dentro de mim

vou pôr minhas mãos no fogo
arriscar-me no jogo
e dizer-te que sim

(como é que eu hei-de apagar esta paixão?)

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Dezembro


This is my December
These are my snow covered trees
This is me pretending
This is all I need



And I'd give it all away
Just to have
Somewhere to go to
Give it all away
To have someone
To come home to

segunda-feira, 30 de novembro de 2015

To Learn


O tempo passa l-e-n-t-a-m-e-n-t-e
de forma pastosa
quando não estás...

O prazer de escrever

Embora nem sempre tenha ocasião para isso, a verdade é que gosto de escrever à mão.
Gosto de escolher o papel adequado pelos pormenores: cores invulgares, a sensualidade da textura na ponta dos dedos, a espessura, o peso. Sinto-me como que num paraíso quando visito uma loja especializada em material para artes plásticas, onde posso comprar blocos ou folhas isoladas: a minha "colecção" inclui blocos A4 de cartolina negra, blocos A5 de argolas e papel texturado, e folhas soltas prateadas, cinzentas, marmoreadas, etc. Quando entro nessas lojas, é frequente esquecer-me de olhar para o relógio...

Às vezes tenho de escrever com o que tenho à mão, e nesse caso tento ao menos escolher uma caneta que não deixe marcas fundas no papel, de ponta fina e cuja esfera deslize bem. Ou então uma de ponta tipo feltro ultra-fino, das que servem também para desenho rápido - é que esse é outro dos meus prazeres, desenhar. Carvão (nem sei quantos lápis de durezas e espessuras diferentes tenho...), pastel seco, aguarela, tinta acrílica. A família sabe disto, claro, e volta e meia presenteiam-me com um estojo de material variado pelo aniversário ou Natal. Algumas coisas prefiro ser eu a comprar pessoalmente, como lápis ou canetas de cores metalizadas que sobressaem em papel de fundo estampado. Imaginem receber pelo correio uma carta em papel marmoreado escrito a tinta cor de bronze, por exemplo. Dá um aspecto totalmente diferente de um email, não dá?

Pode-se pôr muito de nós nas actividades que fazemos. E, quando escrevo uma carta, ponho muito de mim, não só naquilo que escrevo mas na forma como o faço, incluindo a escolha de material. Nem sempre isso é possível, como quando escrevi aquela carta, mas mesmo aí fiz o melhor que pude com o que tinha, empenhando-me no desenho da letra.

Juntam-se aí dois dos meus prazeres, escrita e desenho. Porque, ao escrever uma dedicatória, um bilhete, um recado, a letra com que o fazemos pode transmitir o valor e o significado que o/a destinatário/a tem para nós. Faço-o com (relativa) frequência, recorrendo a letra cursiva de arabescos ou caracteres góticos, e desenho as letras com cuidado, atenção, carinho.
E foi para dar expressão ao prazer de o fazer que resolvi comprar um estojo de escrita: papel e envelopes texturados, uma haste de madeira, cinco aparos diferentes, boião de tinta e, claro, lacre e sinete.

Vou certamente praticar muito nos próximos tempos, para me habituar a estes aparos. E pode ser que algum familiar ou amigo se lembre de me oferecer pelo Natal o próximo instrumento: uma pena :)

sábado, 28 de novembro de 2015

A Carta

Hoje fiz algo que já não fazia há algum (bastante!) tempo: escrevi uma carta.
Não, não me sentei ao computador e desatei a teclar como estou a fazer agora. Foi "à antiga", mesmo. Mas se calhar um bocadinho mais... refinado. Planeado.

Peguei primeiro num bloco para ir escrevinhando e estruturar as ideias, porque não queria uma folha cheia de gatafunhos entrelinhados, com partes riscadas e setas a apontar para "onde vai entrar este bocadinho que me lembrei de acrescentar agora e tive de escrever de lado por falta de espaço". Bolas, quem iria conseguir ler isso, se até eu às vezes tenho dificuldade?

Depois dos parágrafos alinhavados, com as setinhas a apontar para os sítios certos de 'cut&paste', peguei numa folha. Branca, lisinha, A4. Caneta azul macia que desliza bem. E um envelope que pedi antecipadamente, descartado como 'inútil' por já não ter o desenho certo mas totalmente adequado para o fim a que se destinava. Observei o paralelismo evidente com as vezes em que também eu fui considerada insignificante ou inútil apenas por não ter o aspecto certo. E sorri.

Comecei por dobrar a folha em terços - nada de mais para quem passou anos a fazê-lo. Ainda consigo fazê-lo à primeira, yayy to me! Fi-lo porque detesto que as dobras acertem num sítio onde já está escrito; fica feio e por vezes dificulta a leitura. Tentar emendar as dobras é ainda pior, porque o papel fica com marcas indesejáveis. E eu não queria que esta carta ficasse feia e com marcas, como eu.

Assim, consegui escrever de forma a que as dobras ficassem entre duas linhas. E é mais fácil manter as linhas direitas quando a altura do papel é menor; é que eu tenho o hábito de escrever como quem parte em missão para o espaço: as linhas escritas começam a subir e acabo com um texto quase na diagonal. Tudo bem quando se trata de apontamentos, um rascunho, uma receita. Esta carta? Não.

Escrevi, escrevi e continuei a escrever. Tudo direitinho, bonitinho, legível. Uma letra mais aprumadinha do que aquela que habitualmente uso para tomar notas, porque essas são só para mim e não me interessa se mais alguém consegue lê-las ou não. Mas a carta não podia ser assim. A carta tinha de ser perfeita, pelo menos em termos visuais, para não correr o risco de ser posta de lado como um rabisco incoerente.

No fim, ficou exactamente como eu queria. O texto fluido, a letra cuidada. Uma folha escrita de alto a baixo com um pequeno espaço de cabeçalho e outro no rodapé. Sem dedicatória nem assinatura. Sem nomes. Sem iniciais. Apenas uma mensagem, extensa mas sincera do princípio ao fim.

Voltei a dobrar a folha e pu-la no envelope. Não fora escrita para ser enviada por correio nem entregue em mão. Segurei-a durante uns minutos, indecisa entre guardá-la ou colocá-la, com um pequeno post-it colorido, onde sabia que seria encontrada pelo destinatário em mente.

Acabei por guardá-la e trazê-la para casa. Não era o momento adequado, e na verdade nem sei se alguma vez o será. Mas se um dia chegar às mãos daquele a quem se destina, esta carta continuará tão sincera e válida como quando foi escrita; e, ou surpreenderá por completo, ou removerá de vez qualquer dúvida.

O conteúdo da carta? Só eu o sei... por enquanto.
O "depois" logo se vê.

terça-feira, 24 de novembro de 2015

Deep Green Sea


It's always the same, wake up in the rain
Head in pain, hung in shame
A different name, same old game, love in vain
And miles and miles and miles and miles and miles
Away from home again


domingo, 22 de novembro de 2015

Em surdina

Entranhas-te nos meus sonhos e sob a minha pele.
É apenas o desejo que preenche o espaço vazio ao meu lado e no entanto é como se conseguisse sentir-te aqui. Impalpável, mas aqui.

Os lábios entreabrem-se para sussurrar o teu nome e só a noite me escuta. Sei que não virás, que nunca virás, por isso fico-me com o sabor proibido de dizer assim, em surdina, o que calo todos os dias - ainda que já o tenha escrito tantas vezes em letras de variados feitios.

Só a noite me escuta mas o vento não me responde, ainda que ulule por todas as frinchas das janelas, clamando o seu poder e exigindo passagem de forma impiedosa. Estremeço, desejando mais uma vez que aqui estivesses, querendo abraçar-te e ser-te porto de abrigo e conforto contra o vento e a dor.

Recolho-me ao leito frio e segredo uma vez mais o teu nome ao fechar os olhos, invocando o sonho onde irei ao teu encontro dos teus braços - algures num mundo irreal
Adormeço com o teu nome nos lábios, sorrindo.

Corres-me nas veias e a cada batida do coração percorres todo o meu corpo.
Sem o saberes, trago-te comigo. Sempre.

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Lost and found

Will you let me lose myself
in you?
Or simply tell me to
get lost
somewhere
any place
anywhere
anywhere
but where you happen to be?

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Vazio

Contemplo o espaço
vazio
o aqui onde queria que estivesses
e toldam-se-me os olhos
enquanto
o coração se amarfanha em tristeza.

Na noite escura,
o tempo dobra-se sobre si mesmo,
os minutos tornam-se horas
e a manhã chega sem avisar.

Com ela chega o tempo
de vestir a personagem,
e o sorriso plastificado,
irreal.

Entro no palco do dia-a-dia
rotineiro, em que nos cruzamos
sem que os nossos passos
alguma vez
sigam na mesma direcção.

O tempo escorre como areia
a noite cai e com ela o pano
de mais um acto.

Parto rumo ao silêncio
do espaço onde não estás,
e horas (ou talvez anos) depois
quedo-me novamente
em contemplação.

No escuro
em que não te ouço respirar
deito-me na curva da tua ausência
e adormeço à escuta
do eco dos teus passos que não chegarão.

terça-feira, 17 de novembro de 2015

Cais

Nunca me encontrarás presa a um sítio pelas amarras do hábito, da rotina, do mero conforto - o que não é o mesmo que dizer que não fico em terra. Mas nem sempre a terra é o lar.

Posso ficar, ancorada, por minha vontade; por um desafio, um projecto, uma pessoa, pois qualquer destes factores implica paixão, envolvimento, entrega. E esperança.

Posso ficar em terra à espera da volta da maré, de provisões, ou que o vento melhore. Posso até estar apenas à espera do momento certo. Mas não posso ficar por ficar, presa a um lugar onde não pertenço e a algo que já não me mereça a entrega ou retorne a paixão.

Posso ficar em terra por falta de sítio para onde ir - porque a viagem é dura, e sem saber se há destino, sequer, torna-se numa forma de lento suicídio. Não me preocupa morrer durante a viagem, mas sim morrer à deriva sem um horizonte, um propósito, um lugar que coração e alma queiram alcançar. Lar não é onde ficamos apenas. É onde nos sentimos inteiros e queremos permanecer.

Até encontrar esse lugar, posso ficar em terra, quiçá por muito tempo. Mas sempre por escolha ou à espera. Nunca me encontrarás presa pelo medo de arriscar a viagem em si, pois se há um destino, um desafio, um horizonte a atingir, mais tarde ou mais cedo içarei velas e partirei sem olhar para trás. E se a morte me sair ao caminho, encontrar-me-á de pé, desafiante, esperançosa, com a alma ao alto e um sorriso nos lábios, viva e decidida a arriscar-se por aquilo que o coração deseja: encontrar o lar.

(Saberás tu onde fica? O coração diz-me que sim...)


quinta-feira, 12 de novembro de 2015

Leónidas

Numa noite de estrelas cadentes,
há meses que pareceram anos,
rendi-me ao infinito
das longas horas
sem te saber
(e tu, sempre tão perto).

Outras estrelas estão agora
de passagem,
e continuo sem te saber
e sem saber
se sabes
que és tu quem eu queria
ao meu lado, a contá-las.

Mas tu,
tu continuas
(a cada dia tão perto)
sem dar qualquer sinal
de que suspeites sequer
o que és e significas
(como é possível
viver dentro do coração
de alguém
e não o saber?)

Outras estrelas virão
e passarão, céleres,
pelo firmamento
numa noite como esta.
Será que te saberei
então?
E tu, onde estarás?
Será que (me) saberás?

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Noite

Cabes inteiro no meu coração
e os meus braços guardam o espaço
vazio
onde deverias estar
dormindo
aqui, rente ao peito.

Na madrugada embalo o sonho
de um nós que
não pode existir
e com os olhos ainda molhados
adormeço à sombra
de estrelas longínquas.


segunda-feira, 9 de novembro de 2015

Parte de mim

Sou o que vi e vivi,
o que senti e experimentei
Sou onde fui e não fui,
o que fiz bem e o que errei.

Sou tudo aquilo que amei
e amo, por isso sou tu
sou as gentes da minha vida
as que trago no coração nu.

Tudo o que passou por mim,
tudo o que quis absorver,
tudo isso agora sou eu
nesta forma única de ser.

Sou vento, sol e maré,
sou flecha, árvore, lua
sou o que trago cá dentro
sou de ninguém e sou tua.

Intimidade

"(...)
Intimidade requer tempo, requer dedicação, requer interesse profundo. Intimidade é oposto de superficialidade.
Intimidade não é saber a cor da roupa interior. Intimidade é saber a cor dos sonhos, a cor dos olhos quando choram, a forma exacta dos lábios quando sorriem. Intimidade não é ver alguém de lingerie... isso tu podes ver a qualquer momento, com alguém que já conheces há muitos anos ou há poucas horas. Intimidade não é ver alguém despir-se das roupas. Intimidade é ver alguém a despir-se das barreiras, dos medos, das suas verdades incontestáveis, das suas certezas absolutas. Intimidade é a entrega, mas não a entrega do corpo. Intimidade é a entrega mais difícil: a da alma e do coração."

do texto de Nat Medeiros, aqui

domingo, 8 de novembro de 2015

Acreditar

Também eu estou à espera de mim
Algo me diz que a tormenta passará.


É a vida que segue e não espera pela gente
Cada passo que demos em frente
Caminhando sem medo de errar
Creio que a noite sempre se tornará dia
E o brilho que o sol irradia
Há-de sempre me iluminar

sábado, 7 de novembro de 2015

Convite

Anda, vem sentar-te aqui
à beira do sonho,
deixa-me mostrar-te
as suas cores
e descrever-te
o seu sabor intenso

Fecha os olhos e recosta-te
sente na face o calor
do sol de Inverno
e na pele a brisa
do entardecer

Enquanto repousas
fico ao teu lado
e conto-te a história
deste sonho, como nasceu,
e até onde quer ir

Não adormeças! Este sonho
é para viver de olhos abertos
há um barco à espera, se tiveres
a coragem de arriscar
e seguir
até onde o sonho nos levar.

Vens comigo?

sexta-feira, 6 de novembro de 2015

Luzes na escuridão

Uma parede a toda a volta.
Foi essa a sensação esta noite, na estrada, ao sair do trabalho. Nevoeiro denso a ponto de não saber a que distância estava a saída que eu tinha que apanhar, ou sequer se já a tinha passado sem dar por isso.
"Algodão em rama", "sopa de ervilhas", já ouvi várias comparações para tentar descrever um nevoeiro assim espesso. Mas nenhuma consegue transmitir a ideia, a sensação de isolamento e desorientação que se tem numa noite destas, em que perdemos a noção de onde estamos e para onde vamos. Só as luzes de outros carros nos mostram que não estamos sozinhos.

Às vezes, a vida coloca-nos em situações em que nos defrontamos com a mesma sensação. A noite pode estar perfeita e o céu claro de luar, mas isso não impede que tudo nos pareça escuro.
Num momento ou noutro, por diferentes razões, acontece-nos a (quase) todos: sentir que estamos perdidos no nevoeiro e não sabemos para onde ir.
Nessa altura, para os que têm essa sorte, há uma luz que se acende, uma mão que se estende, uma palavra que nos indica o caminho.

Os Amigos são as luzes que nos guiam de volta a casa.

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

Paperboats

Again and again, I write.
Words of love and hope
words of secret sadness
for what I cannot have.

Again and again, I weave
words into tapestry
a fabric of blissful dreams
that won't come true.

Again and again, I fold
words into origami
paperboats sailing to you
through the night.

But the tides are too strong
and my paperboats fall apart
in the deep waters
of your oblivious silence.

From the cold, rugged shores
I watch them sink
and all I have left
are words for sorrow.

Stripped of words,
I draw on the sand
a loving kiss you will never receive.

Dreams


(This and a lot more awesome Smiths mash-ups can be found here)

Last night I dreamt
That somebody loved me
No hope - but no harm
Just another false alarm

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Guess what?

Just switch the speaker.


I am everything you want
I am everything you need
I am everything inside of you
that you wish you could be
I say all the right things
at exactly the right time
but I mean nothing to you

... and I don't know why.

Fade Into You

terça-feira, 3 de novembro de 2015

Radio silence

Chega.

Não consigo continuar esta caminhada insana, em que cada pé tacteia o chão à sua frente antes de pousar, pois tudo em volta é areia movediça.
Não consigo continuar a amordaçar-me, a controlar constantemente o que digo com receio de dizer a coisa errada.
Não consigo continuar a apagar metade do que escrevo e a amarrar palavras com receio de que as letras me traiam, deitando todo o esforço a perder.

Nunca fui pessoa de desistir sem sequer tentar - mas quando está garantido o equivalente a uma derrota, mais vale aceitar à partida que não há nada a fazer e poupar as forças para suportar a dor que há-de vir.

E ela virá.

Virá, escura e pesada como um trem a vapor, e igualmente imparável.
Virá, escura e ominosa como um Dementor e igualmente devastadora.
Virá, escura e imensa como uma noite de tempestade - pois não há bonança em dias de que não faças parte.

No deserto em mim, visto-me de silêncio.

Too late


But if I fall for you, I'll never recover
If I fall for you, I'll never be the same

... Well, it's too late already.



Haven't you noticed?

Mandala

Espalhei as palavras à minha frente - como contas coloridas, jóias, pedaços nacarados de conchas marinhas que um dia deslizaram sob as ondas - e peguei-lhes com cuidado, quase ternura, por aquilo que crio com elas.

Cuidadosamente arranjei-as, ordenei-as em padrão (um desenho retorcido como eu o sou) e enlacei as frases para que o sentido, simples e linear como as nossas conversas, não deixasse transparecer a riqueza multicolor subjacente.

Uma e outra vez lancei-as como borboletas até ti (estranhas borboletas estas que constroem pontes de comunicação) mas com o cuidado de quem caminha sobre gelo fino, escorregadio e traiçoeiro, pois uma simples conta, uma pérola a mais, poderia expôr o que não devo revelar.

Talvez um dia, à conta de tantas borboletas trémulas que esvoaçaram na tua direcção, consigas ver o padrão escondido, a mandala fractal onde, entre conchas e contas de cor, escrevi o teu nome.

(original aqui)

domingo, 1 de novembro de 2015

[Palavras de outros]: Eugénio & Sophia


"Devias estar aqui rente aos meus lábios
para dividir contigo esta amargura
dos meus dias partidos um a um."

Eugénio de Andrade

--- § ---
[Os grandes poetas o disseram, melhor do que eu alguma vez poderia.
Sobra-me apenas uma palavra: Faltas-me.]
--- § ---

"Num deserto sem água
Numa noite sem lua
Num país sem nome
Ou numa terra nua
Por maior que seja o desespero
Nenhuma ausência é mais funda do que a tua."

Sophia de Mello Breyner Andresen 

Song For Someone

If there is a light you can’t always see
And there is a world we can’t always be
If there is a dark within and without
And there is a light, don’t let it go out



sábado, 31 de outubro de 2015

G.8

Contas semanas como quem desfolha páginas de um livro de dor e saudade.

Quisera abraçar-te, dizer-te algo que te confortasse mas não sei o quê. Nem sei se deixarias, sequer - vejo-te casual a ponto de eu não perceber até que ponto a face que mostras é a de um estóico ou apenas máscara destinada a afastar quem não interessa.

Não queres nada de mim, mas ainda assim algo nesta nossa condição de seres humanos guarda em si espaço para a empatia e o carinho nas muitas formas que pode envergar. É só o que posso oferecer; e, se porventura alguma vez vieres a precisar, estarei por perto.


Allons

Há muitos anos, quando visitei Paris, trazia música na alma, música que reverberava a cada passo pela cidade, a cada ponto de passagem identificado.

Há muitos anos, quando visitei Paris, tive a certeza de estar num lugar onde a magia podia acontecer.

Sei que pode.
Talvez um dia lá volte com a pessoa certa e o confirme.
Ou talvez nunca o possa fazer e guarde no coração o sonho até ao fim dos meus dias.

(borrowed from here)

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

O porquê dos porquês

Hoje pediram-me para fazer um Teste de Dominância Cerebral e o resultado está aí em baixo.
Não é que não estivesse à espera - mas ao olhar para o diagrama só me ocorreu uma palavra: "fónix!"

EXPERIMENTAL - Dominância de Superior Direito
Tem insights, imagina, especula, corre riscos, é impetuoso, quebra regras, gosta de surpresas, percebe oportunidades.
 Gosta de arriscar-se, inventar soluções, desenvolver uma visão, ler variedade, fazer projetos, causar mudanças, fazer experiências, vender ideias, desenvolver novidades, ver o quadro geral, ter muito espaço, integrar ideias, lidar com o futuro, enxerga o fim desde o começo, é visual.

Para quem tiver curiosidade de ser "diagnosticad@"...
  Teste de Dominância Cerebral

quinta-feira, 29 de outubro de 2015

Cartas na mesa

» Se eu pudesse, subrepticiamente e sem deixar rasto, hackear a tua agenda e marcar um day off
» Se eu pudesse esperar-te à porta, no carro, para seguirmos daí para qualquer sítio junto ao oceano
» Se pudéssemos estar afastados de toda a gente, offline por umas horas sem que ninguém questionasse o porquê
» Se pudéssemos simplesmente sentar-nos a ver o mar, conversando francamente, sem filtros e com todas as barreiras descidas
» Se pudéssemos, logo à partida, acordar no uso de total transparência e sinceridade - sem malícia e sem intenção de magoar, apesar da consciência de que por vezes a verdade magoa
» Se pudéssemos, logo à partida, acordar que o que fosse ali dito não seria divulgado ou discutido com mais ninguém e não teria consequências visíveis
» Se pudéssemos, por fim, ficar em silêncio e serenidade a absorver todas as cores do céu e do mar

Estarias disposto a essa experiência?
Estarias disposto a ouvir e a falar sem reservas?
Serias, também tu, capaz de pôr de lado qualquer defesa e ficar vulnerável?
Serias, também tu, capaz de verdadeiramente ir a jogo e colocar todas as cartas na mesa?

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

No Escuro

Abrir jogo - II

Isto de arrumar as ideias e passá-las a escrito tem muito que se lhe diga.
Vamos cá a ver... onde é que eu ia? Ah pois, abrir o jogo. Arriscar e ver no que dá.

Não me parece.
Não sou burra, tenho olhos na cara e sei como sou.

Primeiro, o exterior. Não sou "uma estampa"; não sou sequer atraente e já passaram muitos anos desde a altura em que podia despertar alguma curiosidade, baseada principalmente num aspecto vagamente exótico. Guess what? Actualmente este país está cheio de gente de todos os cantos do mundo, pessoas visualmente muito mais interessantes. Em qualquer sítio se encontra gente assim. Portanto, strike 1.

Agora o interior. Tenho "mau feitio" e sou difícil de aturar. Já mo disseram muitas vezes na cara e admito que é verdade. Irrito-me e às vezes digo coisas que não deveria. Sou retorcida, nada submissa, e não aceito um "porque sim" como resposta. Às vezes sou vingativa, mas só um bocadinho (o suficiente para a outra parte perceber que não me comem por parva). Gosto de ganhar, mesmo a feijões, e só tenho bom perder se o adversário não fizer batota (que o diga um certo tabuleiro de Monopólio). Strike 2.

Finalmente a cobertura do bolo: não tenho paciência para gente poucachinha, sem imaginação, sem ambição, que não gosta de ler nem aprender e acha que tudo é uma perda de tempo, ou que deve ser feito sempre, sempre, sempre da mesma forma "porque sempre foi assim". Arrrghhhhh! Como detesto essa frase! Gosto de dar, de criar, de inventar, de imaginar, de descobrir, e detesto sentir-me manietada. Gosto de coisas e pessoas que me desafiem intelectualmente, pessoas que consigam manter uma conversa decente mas não sempre sobre a mesma coisa, pessoas com quem consiga estabelecer múltiplos pontos de contacto de interesses. Há muita gente assim por aí, mas não ao meu alcance. Strike 3, I'm out.

No final de contas, é a isto que se resume: demasiados pontos negativos para poder ter um mínimo de chance. Então para quê arriscar quando se sabe qual vai ser o resultado? Para criar um ambiente crispado, em que os dois lados têm dificuldade em falar sobre a mais insignificante das coisas, porque ambos têm presente o que não está a ser dito? Ou para ter um ambiente em que o contacto seja limitado ao absolutamente necessário e de má vontade?

Disse-o e mantenho-o. Não vou pedir-te nada. No máximo, poria os pontos nos ii te se tivesse a certeza de não perder a comunicação que vamos tendo - que é pouca, mas melhor do que nada pois não há crispações.
Pelo menos consigo dizer o teu nome sem me engasgar quando preciso de falar contigo, e olhar-te nos olhos quando às vezes conversamos - com a certeza de que não consegues ler os meus. Tenho quase a certeza de que continuas a não lhes saber a cor... e acredito que continues a não saber que é de ti e contigo que "falo", aqui.
Dir-mo-ias, se já soubesses? Olha, vamos combinar algo, um desafio: se descobrires a verdade sem que eu ta dê de bandeja, basta que me digas a cor. Até podes plantar-te à minha frente para os ver melhor. Diz-me a cor e nada mais; aí eu saberei que sabes.
A partir daí, all bets are off.

(acabei de me lembrar que, na volta, até já descobriste e sabes a verdade mas, num gesto de gentileza, finges que não dás por nada, exactamente para evitar a tal crispação de que falo...)

terça-feira, 27 de outubro de 2015

Abrir jogo - I

Teoricamente, isto devia ser algo super-fácil. Mesmo! Muito fácil para quem, ainda por cima, tem experiência prévia. Mas não é bem assim.

"Quem não arrisca, não petisca!", "Quem não pede, passa fome" e outras frases do género declaram o que parece ser uma verdade de La Palice: se não tentarmos alcançar o que queremos, é muito provável que não venhamos a obtê-lo. Isto é trigo limpo, farinha amparo, se estivermos a falar de coisas como ganhar na Lotaria ou conseguir acesso a um curso, por exemplo.

É tudo muito bonito mas existe o reverso da medalha (claro!!!).

"Quem anda à chuva, molha-se", que é como quem diz, quando alguém se expõe, arrisca-se a que algo (ou tudo, numa bela demonstração da Lei de Murphy) corra muito mal e o resultado seja custoso. E quando o que está em causa são sentimentos... o "mal" passa a "terrivelmente mal" e "custoso" transforma-se em "francamente doloroso".

Traduzindo em miúdos: quando corre mal, dói p'ra catano.

É que, quando admitimos perante nós próprios e perante os outros que temos 'um afecto muito grande' por alguém, expomo-nos substancialmente. Ficamos desprotegidos, abrimos o flanco para quem quiser atirar lança ou pedra.
E como é quando abrimos o jogo, expomos o coração e o sentimento a quem é o objecto desse afecto? Altera-nos de imediato o ritmo cardíaco. O coração fica apertado, cada batida em esforço como se o sangue fosse pastoso. É a antecipação, o momento de maior perigo. E dói, esta vulnerabilidade, esta entrega, este depositar do sentimento nas mãos de alguém que não sabemos como irá reagir.

Quando essa reacção é positiva é como ganhar uma corrida, ver o nascer do dia seja a que horas for, uma aurora de bonança saudada por inúmeros arco-íris de uma chuva que acabou de partir.

Quando é negativa... mesmo que já a esperemos, custa, custa sempre.
Pode ser como se o chão desabasse e nos sentíssemos cair sem controlo, incapazes de saber o que acontece a seguir ou se vamos sequer sobreviver ao embate.
Pode ser como um corte de papel, daqueles que a maioria das pessoas nem vê, de tão pequeno que é. Mas quem o tem na carne sabe bem onde está e a dor que causa.
O efeito pode ser grande ou pequeno, mas nunca, nunca ficamos incólumes, nunca ficamos como se nada tivesse acontecido. Quem disser que não sentiu nada ao ver os seus sentimentos rejeitados, na realidade nunca amou sequer.

É por isto que custa abrir o jogo - mesmo tendo a noção de que, se não o fizermos, não alcançaremos nada pois ninguém o fará por nós.
O que queremos afinal?

[Palavras dos outros] Coisa Amar

Contar-te longamente as perigosas
coisas do mar. Contar-te o amor ardente
e as ilhas que só há no verbo amar.
Contar-te longamente, longamente.

Amor ardente. Amor ardente. E mar.
Contar-te longamente as misteriosas
maravilhas do verbo navegar.
E mar. Amar: as coisas perigosas.

Contar-te longamente que já foi
num tempo doce coisa amar. E mar.
Contar-te longamente como dói

desembarcar nas ilhas misteriosas.
Contar-te o mar ardente e o verbo amar.
E longamente as coisas perigosas.

(Manuel Alegre)

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

A simple truth


"You make my heart feel like it’s summer
When the rain is pouring down.
You make my whole world feel so right when it’s wrong
That’s how I know you are the one."


Storms

I face my empty bed as I do every night,  knowing it will be just another night where I wish you would be here. As the rain keeps pouring, lightning illuminates the room, making everything look black-and-white. Storms have a sensuality about them that is hard to describe to those who just focus on the rain. I would invite you to the roof if you were here, to face the storm with me. Would you accept it? Would you be out there with me, embracing the wind? Alone, it does not hold the same appeal so I just climb into the bed. The distant thunder roars and though lonely, I feel safe. I hold on to the pillow beside me for a meek comfort, just enough to help me fall asleep. And sleep arrives, deep and dreamless.

I wake up. It's very early in the morning, and it is raining again. Or still, I do not know. I do not attempt to go back to sleep, I just lay there looking at the window, watching darkness retreat from the gray skies, longing for you once again. There's nothing like spending the lazy hours of an early morning in bed, listening to the rain falling outside, feeling sheltered by the arms of your loved one. The pillow provides not such. No warmth, no love, no feeling of belonging together.

Would it feel like that if you were here? I'd like to think it would. And yet, maybe I am just beeing a fool, lost in an atmosphere of make-believe I surround myself with. Believing that, if the circumstances were different, you'd be able to accept what I have to give. Believing that, upon understanding through my words how deep my feelings are, you would smile and say "Let's give it a try". Believing that we would build something beautiful together, something amazing, something glorious. And that we would spend rainy sunday mornings cuddling together.

But, as always, you are not here. Even if made it clear this was about you, even if I wrote down your name or initials in capital, huge-font letters, in such manner you would have no way to not see, you wouldn't come. You will never come, and I have nothing but my pillow to help me through another lonely, rainy night.

Inside, I become the storm.

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Antecipação

Se um dia deixarmos de partilhar
os mesmos espaços
os mesmos passos

Se um dia as marés da vida
me arrastarem para longe
e eu for parar a uma costa distante
onde o teu nome não seja ouvido

Se um dia os meus dias não forem
prenhes de momentos
onde te veja
e a já pobre e minúscula
possibilidade
de alguma vez me veres
sob uma outra luz, despida
de máscaras
e eu ser-te mais do que hoje sou
se desfizer em pó

(estes Ses que me esmagam e que podem
não estar tão distantes no tempo
como julgarias)

Se um dia todos os meus dias
forem desertos de ti,
contar-te-ei, por fim,
a verdade

Acenderei para ti
o luar
e sob o brilho prateado
poderás ver
como cada palavra
cada sílaba, cada ponto
que bordo nesta tapeçaria
pulsa o teu nome.

Definitions

Infatuation.
Affection.
Love.
We cannot choose who we will fall in love with.

Sometimes, it's a sudden thing. Pheromones trigger a reaction and before you know it, you're following this person's every move with your eyes, as if you were hypnotized. It can disintegrate in the same sudden manner if you find out there's something about them you dislike.

Other times, it's something that's cultivated over time, and grows steadily with time spent or things done together. You enjoy their company and would be glad to do that more often. You think of them at odd times, remember little things they like and get them unusual gifts for no apparent reason. It's a comfortable place, although it may not grow further.

Then, there's that feeling that sweeps you off your feet. You want to sing, dance in the rain, walk on the beach just because. You also think of them at odd times, like when you're shopping or driving home from work and you just wish they were there, going home with you. It would be glorious... if sometimes it didn't happen about the "wrong" people. I'm not talking about folks with dubious behaviour - just people who can't give you what you want. People who can't love you back, either because you don't look the way they idealize their match, or because they think of you just as a good friend, or, finally, because they're already in a relationship and therefore unavailable. Either way, they cannot reciprocate and you're stuck with an unrequited affection. That's what makes them "wrong".

But... if you think further, the person may be "wrong" for you, but that doesn't mean your feelings are. Yes, you're in love with someone who does not love you back. That sucks, big time. But if the feeling itself makes you sing, or dance, or write, and see the world differently, and bet the highest stake on being the best version of yourself you can be, can you truly say that's a bad thing?

Well, I won't. Being in love inspires me in a multitude of ways into doing new things, or things I always liked but have let them get sidetracked, like writing. The fact that my feelings aren't reciprocated does not rob them of their value. I cherish them, and the way they make me feel so alive, like I've awakened from a long slumber. Sure, I would prefer to be cuddling with you in bed instead of writing about it. But the fact that I'm writing again, and so often, is itself a small wonder, and I should thank you for that. Our lips may never come together, and our bodies will most likely never melt into each other in a slow dance of passion and lust, but that does not mean I will stop smiling at the mere thought of you - like I'm doing right now.

The truth is, you may never know it is you I am writing about, here - because, out of this place, I do not show a sign or word betraying how I feel about you. It would be a freak accident if you guessed the truth, for it would put us both in an awkward situation. No matter how much I'd want you to love me back, you will not see your name here, you will not hear my voice crying for this unrequited affection.

You may be the "wrong" person, but there's nothing wrong about being in love with you. And that makes all the difference.

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Escultura

Neste lugar onde não estás
capturo o vento e agarro o ar
fecho os olhos, e de memória
moldo a tua face
que os meus dedos nunca tocaram,
desenho o teu sorriso e torneio
a traços largos o teu corpo.

Se alguém me visse, pensaria
que estou louca ou em transe
de olhos fixos num ponto
à minha frente
mas o que não vêem
é o teu eco, esculpido no nada
espécie de fantasma que olho
com incomensurável ternura...

Como uma estátua invisível,
a não presença que, esta noite,
quando adormecer sorrindo,
ficará ao meu lado,
no lugar
exacto
onde queria que tu estivesses.

(E talvez, nos estranhos caminhos dos sonhos, nos encontremos para lá da alvorada)

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Think about it...

(...)
Life ain’t nothing if it ain’t hard
It’ll show you who you truly are
Knock you down when you get too tall
Till you spun around in a free fall

But somewhere out there past the storm
Lies the shelter of your heart
(...)

So how hard can it be (how hard)
To share your love with me?
How hard can it be
To rise with me each morning
How long it feels like
We will live forever
But I fear
That time can hide the years
Like we were never here
So hold on tightly my dear

Before we disappear
Before we disappear

terça-feira, 20 de outubro de 2015

Rendição

Quem pensaria que algo tão doce e suave como a ternura pudesse tornar-se esmagadora?

Quando te vi hoje, foi como se o coração parasse por segundos, suspenso enquanto processava e gravava a tua imagem, e ao contrair-se me roubasse a respiração. Sim, senti-me esmagada e sem ar pelo volume da ternura que me preencheu, que me fez desejar correr, olhar-te nos olhos em silêncio, pegar na tua mão e pousá-la sobre o meu peito para que sentisses o coração lá dentro batendo por ti.
Esperando que sem palavras entendesses o que não posso verbalizar.

Ainda agora, ao recordar esse preciso momento, sobrevem um arrepio, uma urgência na pele em tocar e ser tocada, um desejo não traduzido em gestos a não ser os dos dedos dançando sobre as teclas. E uma vontade de escavar o peito, abrir um buraco e extrair o coração, depois carregá-lo na mão ainda batendo e procurar até te encontrar, para to oferecer.
Mas tu ficarias a olhar para mim, mudo e incrédulo - ainda que tivesses percebido tudo, lendo através de tudo o que tenho escrito para ti, não terias uso para ele, não saberias o que fazer com um coração como este, cheio de marcas, remendado, pousado na minha mão em concha. Ficarias a olhar para mim e para este coração que não queres, indeciso entre aceitar, para o deitar fora logo que eu virasse costas, ou simplesmente desviar os olhos e recusar.
Mesmo sabendo tudo isto não consigo escapar, não consigo evitar que esta ternura, esta vontade de estar contigo, de passar uma mão em silêncio na tua face - enquanto os meus olhos se enchem de mar revelando outro Mar cá dentro - e selar esse silêncio com um beijo leve e doce, me domine de forma avassaladora.
E rendo-me por fim ao que já não consigo nem quero combater.

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

A noite passada

... sonhei contigo.



Sonhei que nos encontrávamos algures numa praia, longe de tudo, longe de todos, em tarde de vento e chuva. Que caminhávamos na areia, conversando, de mãos nos bolsos; lado a lado, protegidos do vento por casacos quentes e dizendo disparates ao mesmo tempo que falávamos de coisas sérias.
Que respirámos o silêncio mesclado com vento, e nos rimos, caminhando, até perguntares - se era verdade, se tinhas lido bem as entrelinhas e entendido bem todas as pistas.

Sonhei que fechava os olhos ao vento, o assobio nos meus ouvidos quase ensurdecedor - desculpa perfeita para fingir que não tinha ouvido, só para não ter de responder e de ouvir a seguir o que receava. Que bebi o vento mesclado com chuva, e respirei maresia, tentando ganhar coragem - para te dizer que sim, que era e é verdade, que é a ti que falo e me dirijo quando escrevo aqui sobre o que sinto, e que tudo o que aqui escrevo e sinto é verdade e é tão intenso como o Mar.

Sonhei que fizeste silêncio, que foste silêncio até eu ter de me virar e ver para ter a certeza de que não te tinhas ido embora. Que não me olhaste nos olhos, porque até nem nunca olhas, mas nessa hora em que não me olhaste o meu coração se apertou e fez pequenino. Que respiraste silêncio mesclado com maresia, as mãos metidas no fundo dos bolsos até endireitares as costas e olhando para o céu cinzento disseste apenas "ok".

Sonhei que de novo foste silêncio e então também eu fui silêncio enquanto caminhávamos de volta ao lugar onde tinham ficado os carros; lado a lado, de mãos nos bolsos mas carregando o silêncio entre nós. Que, sem me olhar, disseste apenas "até amanhã" e te meteste no teu carro, conduzindo sob a chuva fina mas incessante. E que choveu e continuou a chover até que cheguei a casa, envolta em silêncio, sem saber o que fazer, o que dizer, o coração pequeno mas leve por já não encerrar um segredo tão grande.

Adormeci com maresia nas veias e acordei confusa, sem saber se tinha sonhado ou não, se apenas sonhei ou sonhei que sonhei.
Quando cheguei à janela, chovia.
E senti uma imensa vontade de caminhar junto ao mar contigo.

domingo, 18 de outubro de 2015

Música

... e chocolate. Deliciosa combinação.



"Eu quero ser para ti a camisola dez
Ter o Benfica todo nos meus pés
Marcar um ponto na tua atenção
Se assim faltar a festa na tua bancada
Eu faço a minha ultima jogada
E marco um golo com a minha mão"


Sorri, pensando em ti ao ouvir isto - por múltiplas razões.
(Gosto de imaginar que. por vezes, talvez te lembres de mim ao comer um pedaço de chocolate...)

Mas a verdade é que sorrio muitas vezes ao pensar em ti: recordando algo que disseste, ou apenas o som da tua voz ou do teu riso. E sinto uma e outra vez aquela ternura de que já falei, infinita e doce.

Embalada por essa ternura adormeço, desejando que estivesses a meu lado.

sábado, 17 de outubro de 2015

O som das ondas

Vou contar-te algo.
O que fica aqui não é mais do que o formato final, depois de uma série de tentativas que descarto por achar que não correspondem ao que quero realmente dizer. São inúmeras as folhas rabiscadas, palavras e estrofes riscadas, eliminadas, por não terem a força ou a suavidade requeridas - porque o que sinto não é sempre igual. Como o oceano.
Há ondas, há tempestades e há calmarias. Há dias de brilho azul interminável, quase cegante, de ondas preguiçosas que se espraiam nas rochas, e há-os de vento e turbilhão, em que as vagas verde-cinza afrontam as falésias ao mesmo tempo que se erguem para receber as gotas de chuva. E há as noites. Noites de chão prateado de luar, as ondas não mais do que um arrulhar que acaricia a areia, envolvendo-a em terno abraço.

Já vi todas essas cores, ao vivo e de perto. Senti os respingos e a maresia, caminhei na areia ou deixei-me estar de olhar perdido no horizonte líquido. Vi o mar em inúmeras encarnações, e sei o que digo quando te digo que o que sinto tem as mesmas nuances - porque há dias em que quero guardar este sentimento só para mim, e outros em que quereria gritar ao mundo as suas cores e a sua força, disposta a enfrentar qualquer coisa. Mas há também os dias e noites em que não sei se não seria melhor que nunca o tivesse sentido - porque um sentimento como este alberga em si mesmo uma semente, que tanto pode florescer em indescritível alegria como em inenarrável dor. Tudo depende da forma como é tratado: acolhido e aceite com ternura ou renegado com pena ou repulsa.

É por saber dessa semente que, por muita vontade que por vezes tenha de te falar de tudo isto, não posso fazê-lo. Não quero dar azo a que a semente se transforme no tipo de dor capaz de rasgar um coração. E, por mais suave que seja a voz, por mais delicada e atenciosamente que seja dito um "não", a dor que ele traz é inevitável.

Por isso, para que não tenhas de o dizer, não te chamarei, não te procurarei para dizer-te o que sinto. Para que não sejas inamovível rochedo, não te falarei deste sentimento que, cada vez mais, me apercebo que é como o oceano: grande, intenso, mutável e mais profundo do que se pensa.

Talvez um dia, em vez de rochedo, possas ser enseada; aí, se o quiseres, encontrar-me-ás: pronta a cantar-te baixinho na rebentação, a repousar em ti num beijo sereno e num terno abraço de Mar.

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Seria?



Se um dia um anjo fizer
A seta bater-te no peito
Se um dia o diabo quiser
Faremos o crime perfeito

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Unsung

Unwilling?
Undesired...
Unrequited.

"Half of love is just lo" - which is how I feel everytime I realise there is no chance, no time, no place, no way for me to be with you.

Nocturno

Anoiteço na minha própria penumbra.
Sem saber como, fui apanhada no rebordo do teu campo gravitacional - de longe, como Plutão, que nem direito a ser planeta tem, mas que dia após dia orbita fielmente a sua estrela, ofuscado pela grandeza imponente de um Júpiter ou pelo esplendor anelado de um Saturno.

Às vezes queria ser um cometa, sabes? Poder largar amarras e partir rumo a ti, passar tão perto que não terias outro remédio a não ser ver-me, mesmo ver-me, enquanto me aproximasse e numa rápida passagem contornar-te, vendo-te de todos os ângulos, antes de voltar a cruzar o espaço rumo à distante Oort.
Saber que por um instante no tempo teria a tua atenção, ainda que mesclada do receio de que eu perdesse o rumo e me despenhasse contra algo ou alguém, numa apoteose de caos e destruição.
Saber que passar demasiado próximo seria o meu fim - mas que talvez valesse a pena.

Como o Sol - quente, brilhante, e não te posso tocar, nem sequer aproximar-me demasiado... mas sei a tua luz e não preciso de ver-te para te saber lá. Deito-me e quando fecho os olhos tenho a tua imagem gravada no interior das pálpebras; no silêncio da noite as meninges trazem-me de volta o som da tua voz e do teu riso e por momentos é como se estivesse a ver-te.

Mas estou sozinha, e continuo sozinha, calada, no escuro, ouvindo o tiquetaque do relógio, perdida no turbilhão de pensamento e sentimento que me assola.

"Lying in my bed I hear
the clock tick, and think of you

Caught up in circles,
confusion is nothing new..."

Admitindo, finalmente, com um suspiro o quanto gostaria que estivesses aqui ao meu lado, adormeço.

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

Everything

Find me here,
And speak to me.
I want to feel you,
I need to hear you.




You steal my heart,
And you take my breath away.
Would you take me in?
Take me deeper now

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Esta infinita ternura

... frágil e delicada, que me preenche e me inunda até transbordar pelos olhos ao pensar em ti.

Cristal

Às vezes penso se deveria ou não escrever aqui. Não é o escrever, em si, que questiono; quem escreve o que sente sabe que é como uma necessidade, verter em palavras tudo o que nos enche o peito e a mente num turbilhão alucinante - se bem que, escrevendo, moldando as palavras, libertamos espaço na cache para mais do que precisa de ser traduzido.
Não, o que questiono é se deveria escrever aqui, neste espaço, ao fim e ao cabo semi-público. E questiono-me porque existe o risco de, lendo o que escrevo, não entendas porque o escrevo.

Há sempre, para quem escreve, o risco de ser mal interpretad@ por quem lê. Mas é um risco acrescido para quem escreve sobre o que sente, às vezes revelando o seu segredo mais íntimo.
Porquê, perguntas? Porque há sempre quem, entendendo a razão, o motivo que leva alguém como eu a escrever, consiga distorcer o pensamento e a intenção por trás das palavras. E há quem, entendendo as palavras, não entenda o significado e o porquê de escrever.
E é neste segundo grupo que te incluo, sabes? Porque podes não entender que, embora escreva "para ti", contigo no pensamento e embrenhado nas minhas palavras, não escrevo para pedir ou obter de ti algo.

Embora sejas uma constante dos meus sonhos, a minha pele anseie conhecer o toque da tua e os meus lábios descobrir o sabor dos teus, não te peço nada, nem sequer que te apercebas que és tu quem desperta em mim este sentir. Não te peço que me olhes profundamente nos olhos e me digas, com palavras ou sem elas, "eu sei". Não te peço que me toques a face ou a mão com ternura e que me permitas sentir o teu calor.

Não está nas tuas mãos dar-me ou negar-me o sentir e o escrever. Já os tenho, são meus e preciosos na minha estima. A cada traço no papel, a cada toque nas teclas, cristalizo em palavras o que sinto, ainda que muitas vezes sem conseguir traduzir a sua verdadeira intensidade. Mas são, ainda assim, cristal formado a partir de um sentimento tão transparente que poderias vê-lo nos meus olhos se, verdadeiramente, os visses para além do mero olhar.

É frágil, este cristal. Tão frágil que o estilhaçaria o desviar da tua mão, a pena nos teus olhos ou a sombra na tua voz ao dizer "não pode ser".
E assim, é com infinita ternura que me limito a deixá-lo aqui onde o podes colher - como o sentimento que me preenche, cristalino e frágil e teu.

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

Já agora

Antes de mais, deixa-me dizer-te
que sei bem a diferença
entre sonho e realidade,
entre o vazio
e a presença.

Sei tanta coisa... sei
que a tua mão nunca tocou
carinhosamente a minha
e que nem sequer
sabes ao certo a cor
dos meus olhos;
que o teu braço não me envolve
de encontro a ti
e que nunca fiquei
sorrindo, a ver-te dormir.

Sei também que
se leres, sequer, estas palavras,
nem sonhas que te são dirigidas.

Então que me sobra?
Se não tenho o teu toque
se não tenho o teu olhar
se não tenho o teu abraço...
nesta realidade sem ti
resta-me apenas o sonho.
Por isso, dá-me licença,
deixa-me continuar a sonhar.

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

Cantando o invisível

Invisível aos teus olhos,
este mundo cá dentro
de cor e luz e melodia,
de dor mas também de sonho,
mundo oculto que carrego
comigo, sempre
enquanto a Vida nos move
como peças em tabuleiro,
e nos levanta em turbilhão
como folhas secas de Outono,
rodopiando sem saber
onde iremos parar.

Mas por um breve instante, um acaso
partilhamos o espaço onde o vento
nos deixou.
E eu fico-me aqui
no silêncio de um sorriso
enquanto amordaço as palavras
quase todas
e tranco o desejo
num canto do coração,
a cadeado, código e chave
antes que o consigas ler
nos meus olhos.

Deixo-me embalar em fantasia
breve
sabendo que o vento
acabará por voltar a levar-nos
mas, no aqui e no agora,
as palavras que sobram, essas
liberto-as em canção
e fingindo não dizer nada
digo-te tudo.

 

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

As palavras do Mestre

Nunca, como hoje, a Autopsicografia me pareceu fazer tanto sentido...

porque, ao dizer, finjo
mas, ao fingir, digo
e entre o que digo...........................
....................................e o que finjo
resta o que calo,
o que sinto.





(e tu não andaste em Hogwarts, pois não? ... pois.)

Rotina

De dia...
páginas, papéis, notas,
sons, música, conversas,
sorrisos, passos, pessoas
pausa
recomeça
palavras
palavras
palavras
trocadas, oferecidas,
escritas, atiradas,
guardadas
algumas caladas
até à despedida

De noite...
frio, o vazio
que guardo ao lado
fervente, a pele
que estremece
tristes, os olhos
que adormecem
desertos, os lábios
que cerro
sábio, o silêncio
que não quebro
perdidas, as palavras
que apago
inúteis, as entrelinhas
que não lês

todos os dias são teus
todas as noites são minhas


quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Análise gramatical de um sentimento

Amar não se conjuga no imperativo.

Ao amor amigo, cúmplice e construído entre iguais, fundação indispensável de uma relação sólida e duradoura, a esse amor com futuro mesmo quando o seu passado é recente, opõe-se a paixão avulso, esse sentimento volátil que vive o presente sem amanhã, esse fogacho breve que esbarra nas contrariedades ou se apaga após a concretização.

Além, é um outro país, o dos que não amam - aqueles para quem o amor é perda de tempo, ou mágoa, ou nada. Esses não conjugam, não vivem o verbo na pele. No seu mundo o verbo foi banido.

Amar, tal como chover, não se conjuga no imperativo.
Não posso ordenar que alguém me ame, tal como não posso ordenar que chova.
Mas dou por mim a sonhar no condicional, o sentimento suspenso naquilo que o embala e o abafa - este silêncio entre nós, que não devo, não ouso quebrar.
E, envolta nos sons delicados da fantasia, dos meus lábios escapa-se um murmúrio que só eu ouço.
Se eu te contasse...
se tu soubesses...

domingo, 6 de setembro de 2015

Tão perto, tão longe

Não sei o teu sofrimento de perto, mas sei que sofres.
Não sei a tua dor de perto, mas sei que dói
muito, e que nada posso fazer
para te ajudar.

Quisera dar-te mais do que palavras,
estender-te a mão, estreitar-te contra o peito
e dizer-te baixinho "Estou aqui."
ou nem dizer nada
e partilhar apenas essa dor
agigantada, que escapa
ao consolo de quem não a tem como sua.

São só palavras o que te posso dar.
Mas aqui, tão perto e ao mesmo tempo tão longe,
quero que saibas que não estás só.