terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Círculos

Dias, horas, minutos foram passando e já lá vão quase cinco anos.

Demorei a enterrar os sonhos e a apagar os números.
Acabei por fazê-lo, não contra vontade mas com alguma tristeza. Há sempre tristeza quando deixamos para trás um capítulo que consideramos não ter sido devidamente encerrado, mas que só uma completa loucura justificaria manter em aberto, como uma ferida à qual se arrancam constantemente as crostas - sem deixar fechar, cicatrizar, sarar de vez.

E, no entanto, como tantas vezes acontece em filmes e em livros, a história que ficou por contar alcandora-se de novo no horizonte, como uma carruagem de um comboio louco num círculo mal desenhado. Desafiando-me.

Paro e semicerro os olhos, sem saber bem o que fazer. Tento focar à distância mas o que consigo ver é muito pouco. Quero ver mais, mas não ouso pedir. Talvez agora, como mera espectadora, pudesse assistir ao desenrolar dos eventos, os encontros e desencontros e as batalhas. E sorrio ao pensar no clamor de metal contra metal de espadas desembainhadas... ou não fosse eu quem sou.

É que, apesar do tempo que já passou, ainda mantenho (pelo menos parcialmente) o que disse.
Não foi o medo que me tolheu.
Não foi a doença nem a descrença.
Ainda seria capaz de fazer o que disse que faria.
Mas a história mudou. Já não é a mesma, pois que nem eu sou já a mesma.
Ela lá está, a história - noutros locais, com outros personagens, diferentes vontades e ambições.

Talvez a história seja eterna - círculos atrás de círculos, dentro de círculos.
E talvez eu possa voltar a entrar nela, só o tempo necessário para cumprir o meu papel e voltar a desembarcar, encerrando de vez o capítulo.

Ou talvez não.

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