quarta-feira, 2 de abril de 2008

Aprender

"Burro velho não aprende línguas".
Utilizada por muita gente, esta frase incentiva a cair em erro. Alguma vez um burro aprendeu línguas ? Ou quem é que é capaz de avaliar a idade do burro, já agora ? Mais ainda: quem decide o que é "velho" ou não ?

Este desabafo surge porque não me contento em ficar sentadita a cumprir o meu horário e sem tentar melhorar o que seja, inovar, optimizar. Como nunca cheguei a ir para a Faculdade e agora a vida não me permite andar a pensar em empatar 3 anos da minha vida (por maior que seja o retorno) pensei em Cursos de Especialização Tecnológica - uma formação mais avançada e específica em determinadas áreas, sem invalidar que o formando possa, mais tarde, prosseguir para o Ensino Superior.

Agora é que a porca torce o rabo: a oferta destes CET é escassa; na minha área profissional, então, quase inexistente. A pouca formação em CET que existe ligada à Contabilidade surge fora de Lisboa ... o ISCA de Aveiro tem CET, porque raio não haverá o ISCAL de ter também ?
Ou outra instituição de ensino reconhecida que não nos sugue vários meses de salário bruto para uma "Pós-Graduação" que, pelo facto de não termos um canudito anterior, apenas irá conferir "certificado de participação" ... como querem que os profissionais "de campo", os "operacionais" tenham formação actualizada se não têm onde a ir frequentar ?
É que, quer queiram quer não, uma boa fatia dos "operacionais" são pessoas que apenas concluíram o Ensino Secundário mas depois acumularam anos e anos de bagagem profissional que lhes permite discutir mano-a-mano com quem tem o dito canudo.

Muitas empresas, com estes novos incentivos, exigem licenciaturas para atender telefones e tratar do correio ... mas não lhes passa pela cabeça que a pessoa que aceitar ir para lá apenas o fará de forma temporária ? Que não andaram a queimar pestanas em Análise Financeira, Direito Comunitário ou Sociologia do Trabalho durante ANOS para depois ganhar meia dúzia de euros a atender telefones ? O que buscam estas empresas ? Incentivos fáceis dados com o intuito de empregar o maior número possível de recém licenciados ?

Agora a outra face da moeda ... se todas as empresas resolverem contratar recém licenciados para tudo e mais alguma coisa: 1) que acontecerá aos operacionais sem canudo ? 2) quem irá complementar a formação "onjob" desses recém licenciados cuja formação foi quase totalmente teórica ?
Respostas possíveis:
"Os operacionais podem voltar a estudar"; pois, mas com quê ? Tanto quanto sei, não podemos pagar propinas com ideias nem com cabelos brancos. E até porque há quem não tenha abundância de uns nem de outros.
"Os recém-licenciados podem aprender com outros licenciados que já trabalhem há mais tempo nas empresas"; ok, por exemplo quando o prazo da entrega da declaração do IVA estiver a apertar, ou se faz o trabalho rapidamente ou se dá formação. As duas coisas é que me parece difícil, porque duvido que hajam empresas com 3 ou 4 directores financeiros. Ainda para mais porque muitos destes ou nunca foram ou já há muito tempo não são "operacionais" e levam mais tempo a fazer algumas tarefas relativamente simples porque já se esqueceram como o fazer ...

Estou com um tom azedo ? Sim, é normal. Porque por cada vaga de emprego a que me candidato e sou rejeitada com base em "perfil inadequado" (uma máscara para "lamentamos mas se não és licenciada não tens hipótese") uma enorme fatia irá vagar novamente porque quem foi recrutado com o "perfil adequado" irá daqui a algum tempo mudar para outro emprego com melhores perspectivas. E as empresa empregadoras e/ou as empresas de recrutamento irão novamente delinear o "perfil adequado" assente no obrigatório canudo. Admiram-se que queira estudar mais um bocadinho ? Querer eu queria, garanto - mas onde ?

1 comentário:

Angelman21 disse...

"A adversidade desperta em nós capacidades que, em circunstâncias favoráveis, teriam ficado adormecidas "

Horácio