segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

Luar

Haverá alguém que não goste da lua cheia?
De a ver, redonda, prateada e brilhante no céu?

Nunca o escondi: gosto da Lua e do luar, e especialmente de deixar a mente vaguear quando os meus olhos se perdem a contemplar a lua, ou aquilo que ela ilumina.
É como se já não tivesse os pés na terra, se estivesse naquele momento a voar na direcção desse outro planeta, tão fortemente atraído pela Terra mas sem poder aproximar-se - pois, se tal acontecesse, seria uma catástrofe.

A páginas tantas, dou por mim a comparar-me à Lua: grande, redonda e impossibilitada de se aproximar de quem quer que seja que a atrai. E, porque a atracção é tão grande mas existem forças que a impedem de se deixar levar pela gravidade, a pobre está a desfazer-se.
Sim, é verdade. Vão lá ler e depois voltem.

A Lua está a desfazer-se; a atracção focada na Terra é o que a mantém em movimento, para nossa maravilha, mas ao mesmo tempo é também o que a destrói.

Não brilho como ela.
Não devolvo com esplendor a luz que incide sobre mim.
Não lanço um lençol cor de prata sobre as águas do oceano.
Não danço de forma certeira mas vertiginosa um bailado à volta daquele a quem estou presa
Não me ergo lentamente sobre o horizonte, densa, cor de açafrão, pronta a inspirar poetas e cantores.
Não arrasto comigo as marés à medida que me movo à volta do foco da minha atenção.

Não sou nada disto.
Na realidade, não sou nada, não valho nada.
Não arrasto marés se me mover - a menos que caia numa banheira cheia e acabe causando uma inundação no andar de baixo.
Não causo admiração pelo meu mistério.
Não inspiro ninguém, e ninguém se enamorará do meu brilho.
Ninguém se emocionará ao ver-me dançar.
Quando me aproximo de alguém, por muito que me sinta ligada por cordas inefáveis, invisíveis, essa pessoa não se ilumina. Incomodo-a - ou, na melhor das hipóteses, nem dá por mim.
Sei que, se fizesse o que o coração tantas vezes pediu, se desvendasse de uma vez a verdade, seria o caos, a confusão.

E então aprendi a calar o coração com o punho.
Apagando-me um pouco.
Desfazendo-me um pouco.

Esboroam-se os dias até um dia me quebrar por completo; a cada dia o coração se racha mais e as lágrimas do mundo vão-me enchendo. Um dia os meus olhos reflectirão o luar - pois neles estará o oceano.


Mas ninguém mergulhará neste oceano, banhando-se de luar prateado.

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