segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

O outro lado do espelho

"Só sabemos, seguramente, de uma amizade ou de um amor, o que temos pelos outros. De que os outros nos amem nunca poderemos estar certos. E é por isso, talvez, que a grande amizade e o grande amor são aqueles que dão sem pedir, que fazem e não esperam ser feitos; que são sempre voz activa, não passiva"

- Agostinho da Silva, Sete Cartas a um Jovem Filósofo.

Sei-me.
Sei o que o coração me diz e o que me pede.
Sei o desejo que me preenche e o sonho que aconchego.
Sei a vontade e o domínio, a tentativa e o controlo.


Sei o que é abdicar da esperança.

Nada pude pedir e nada pedi.
Dei, apenas.
Dei-me.
E dei-me, incansavelmente.
Em sonhos e nas fantasias que teci, que desenhei, que criei com palavras não ditas na minha imaginação.


Mas fiquei-me, mãos cheias em oferenda sem poder entregar o que tinha para dar.

Há muito tempo que vivo vendo a vida real como através de um vidro, a vida onde nada sou e nada do que eu digo importa.
Escolhi o outro lado - o outro lado do espelho, o lado da fantasia, onde grito ao vento o que sinto, onde o sonho é vivido e alguém me dá as boas-vindas de encontro ao peito num abraço demorado.

E espero, mesmo sem esperança, que um dia haja quem tenha a vontade e a coragem de me trazer de volta ao lado de cá.

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