segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Um dia qualquer

Há anos que cá por casa o dia 14 de Fevereiro é apenas mais um dia como outro qualquer. Nenhum de nós celebra aniversário neste dia, nem sequer o gato.

Chateia-me que existam pessoas que acham que "dar" no âmbito da relação é lembrar-se religiosamente de aniversários, Natais e S. Valentim enquanto no resto do ano se marimbam para qualquer pequeno gesto de carinho.

Estaria a mentir se dissesse que "gestos grandiosos" não me impressionam - na realidade, impressiona-me mais o esforço colocado no acto do que o dinheiro gasto. Dou mais valor a quem resolve aprender a saltar de pára-quedas para o fazer com um banner com uma mensagem amorosa, do que a quem compra um carro topo de gama ou um "cachucho" de vários milhares. Mas daria ainda mais valor se o saltador comprasse uma experiência de salto para os dois.

Se sou romântica? Só um bocadinho. Q.b., acho eu. Dou valor a coisas feitas a dois, mas nem tudo tem de ser feito a dois. Passeio à beira mar ao fim de tarde? Se não estiver a chover torrencialmente, sim. Tratar dos impostos? Nem pensar, a menos que ambos sejam contabilistas e estejam atulhados de trabalho - mas aí isso torna-se apenas "mais um dia no escritório".
Acima de tudo, tem de ser algo a que ambos dêem valor, de que ambos gostem. Não algo para um ostentar e outro sentir-se avassalado. Nem algo para um contar e mostrar a todo o mundo no fb "olhem como sou fixe e extravagante" enquanto o outro desejaria ter um saco de papel enfiado na cabeça.

Falo por mim: gostaria mais de um serão caseiro com comida italiana, vinho, um sofá, um edredão quente e um DVD, do que um jantar de luxo naqueles sítios onde eu nem sei para que servem todos os garfos, mais champanhe e camarote VIP num espectáculo de um artista que não aprecie. No entanto, há quem goste, e acho bem que nesse caso a outra parte, se puder, lho proporcione. Mas também acho irrealista e insensível que uma das partes espere que a outra lhe ofereça um encontro de luxo quando sabe que no resto do mês a mesma pessoa terá de contar os tostões para beber café ou jantar decentemente.
Odeio exigências baseadas no que o resto do mundo espera que se faça ou goste.

Para mim, e simples: expectativas realistas e cada um saber aquilo de que o/a outro/a gosta. E tentar proporcionar pequenos momentos que façam ambos felizes. Não tem de ser no dia 14 nem sequer em Fevereiro. Melhor ainda num dia "só porque sim", porque apeteceu, porque por mero acaso encontrámos na montra de uma pequena loja algo que sabemos que a outra pessoa irá apreciar.

Mostrar-lhe, com um pequeno gesto, que não é num só dia que nos lembramos, mas sim todos os dias que trazemos essa pessoa no coração.

Como não tenho quem me convide a ficar, abraçados, junto à janela enquanto lá fora a tempestade ruge e os relâmpagos parecem rachar o céu em dois, nenhum dia é especial nem "porque sim". Este e todos os outros em que assisto ao magnífico espectáculo da natureza sozinha, não passam de um dia qualquer.

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