terça-feira, 17 de novembro de 2015

Cais

Nunca me encontrarás presa a um sítio pelas amarras do hábito, da rotina, do mero conforto - o que não é o mesmo que dizer que não fico em terra. Mas nem sempre a terra é o lar.

Posso ficar, ancorada, por minha vontade; por um desafio, um projecto, uma pessoa, pois qualquer destes factores implica paixão, envolvimento, entrega. E esperança.

Posso ficar em terra à espera da volta da maré, de provisões, ou que o vento melhore. Posso até estar apenas à espera do momento certo. Mas não posso ficar por ficar, presa a um lugar onde não pertenço e a algo que já não me mereça a entrega ou retorne a paixão.

Posso ficar em terra por falta de sítio para onde ir - porque a viagem é dura, e sem saber se há destino, sequer, torna-se numa forma de lento suicídio. Não me preocupa morrer durante a viagem, mas sim morrer à deriva sem um horizonte, um propósito, um lugar que coração e alma queiram alcançar. Lar não é onde ficamos apenas. É onde nos sentimos inteiros e queremos permanecer.

Até encontrar esse lugar, posso ficar em terra, quiçá por muito tempo. Mas sempre por escolha ou à espera. Nunca me encontrarás presa pelo medo de arriscar a viagem em si, pois se há um destino, um desafio, um horizonte a atingir, mais tarde ou mais cedo içarei velas e partirei sem olhar para trás. E se a morte me sair ao caminho, encontrar-me-á de pé, desafiante, esperançosa, com a alma ao alto e um sorriso nos lábios, viva e decidida a arriscar-se por aquilo que o coração deseja: encontrar o lar.

(Saberás tu onde fica? O coração diz-me que sim...)


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