domingo, 12 de fevereiro de 2012

De que serve o Amor?

Para quê o Amor quando não serve de nada?

Amor só não basta, tal como desejo só não basta.
'O Amor é lindo!'. Então e o resto? Não falo da pele contra pele, do tocar, da suspensão de gravidade que parece existir nos momentos em que os corpos se fundem. Isso também é importante, também é bom.
Mas uma relação, uma vida em conjunto é muito mais. São as adversidades que se enfrentam, as prioridades que se revêm, a roupa para lavar e dobrar, as compras, a despensa arrumada, a lenha e os rolos de cozinha, o chá e o leite com chocolate, o pão com manteiga e os vegetais, o vinho e a água, os hábitos que mudam, os amigos - os comuns e os outros - que passam a lidar com uma unidade recém.criada que, por muito que integre duas pessoas que não perdem individualidade, é algo de novo a ter em conta com as suas próprias rotinas e horários e passatempos e sítios e coisas.

Pontos de vista que se alteram, coisas a que se não dava importância e que afinal passam a entrar nas rotinas essenciais, momentos que passam a ser a dois - escrever uma história em comum, recordações que serão partilhadas, vidas entretecidas em conjunto a partir de certa altura.

Não se pode comer o bolo e ficar com ele. Há coisas de que inevitavelmente se abre mão, uma escolha que se tem que fazer quando se acha que alguém vale a pena, que o querer estar com essa pessoa nos é mais caro ao coração do que a total independência e o fazer o que nos dá na telha a toda a hora e momento, que a felicidade de estar juntos é melhor do que a felicidade de estar sozinho.

Não, só o Amor não chega, só o desejo não chega.
É preciso coragem, é preciso esforço, é preciso colaboração, é preciso todos os dias aparecer e arregaçar as mangas e dar o seu melhor e arriscar e abrir o coração sem defesas a quem nos pode magoar mais do que qualquer outra pessoa. E se esse 'quem' não tirar partido dessas defesas em baixo, se tiver a coragem de abrir igualmente o coração e se dispuser também a arriscar e esforçar-se e arregaçar as mangas e dar o seu melhor todos os dias, a verdadeira história a dois poderá então começar, e fazer-se dos momentos de alegria e de tristeza, de glória e de dor, de um que ampara o outro que está em baixo, o outro que defende o um injustamente atacado, dos risos, dos silêncios, das noites em branco, dos beijos, dos olhares e todas as outras coisas que não se podem comprar.

Não se pode comprar o Amor, embora se possa fingir que existe.
Não se pode comprar o desejo, embora se possa fingir que existe.
Não se pode comprar a coragem de arriscar, de tentar, de dar um salto para o desconhecido - e isso não se pode fingir. Ou se tem e se tenta e nos arriscamos a experimentar o fogo e o trovão e todas as dimensões que se concretizam... ou não se tem e nunca se saberá como poderia ter sido.


'Sometimes you wake up. Sometimes the fall kills you. And sometimes, when you fall, you fly.'
(Neil Gaiman, The Sandman - vol. 6)

1 comentário:

Daniel Silva (Lobinho) disse...

"Não se pode comer o bolo e ficar com ele."

Um texto a falar do oputro lado da moeda. Apenas isso. Porque Amor também é isso: aturar as dores de cabeça do outro, os problemas de ambos, os dias mais cinzentos. Sim, sem dúvida o Amor não é só um coração vermelho...

Bj amigo